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Dia da baixada

“Pés fincados na terra, amor pela favela. 
Reduto da nossa esperança, lar de nossas fraquezas.” Nesse território construímos nossa resistência!

Por Felipe Chehuan*

Baixada Fluminense, território de conflitos, sangue e violência? Ou seria o cenário de uma guerra, para quem vê de fora. Esse não é o meu caso. Moro, respiro e vivo esse território e me orgulho disso.

Nasci em 1979, desde então só tive exemplos contraditórios em minha infância e adolescência. Minha primeira composição sobre a Baixada Fluminense se deu no auge dos meus 16 anos, em Jardim Meriti, na Rua Salgado Filho, em SJM, sentado em cima de um skate, numa rua recém asfaltada, suado e fedendo a “cê-cê”. Como todos os meus amigos, nos anos 90, respirar a cultura pujante no território fazia muito sentido pra mim. Eu tinha uma Guitarra, uma Whasburn Stratocaster Lion branca, que àquela época era possível adquirir com preço acessível. Naquele momento, pouco depois do tetra (1994), eu me sentia importante. Era chique e motivo de orgulho torcer e lutar pelo Brasil, usar uma camisa da seleção… e eu defendi a Baixada desde então!

A música e a cultura, em geral na Baixada Fluminense, foram tudo que me motivou, pois eram tudo que eu tinha. Na real, toda minha referência no geral. Era simples. Era abrir o portão de casa que todos os exemplos do cotidiano dos meus vizinhos me espelhavam. Isso pra mim era o dia a dia, hoje podemos dizer que era o viver a cidade. Sentado nas calçadas, ouvindo meus amigos tocarem violão fui conhecendo a beleza desse “solo árido”.

Berço de trabalhadores e trabalhadoras que exportam diariamente mão de obra para a capital. Daqui também exportamos Cidade Negra, Kmd5, Negril, Nocaute (Banda de Belford Roxo que ganhou prêmio em Los Angeles), Serginho Meriti, Ludmilla, os três irmãos baixistas de Bel, que abrilhantaram bandas como O Rappa, Cidade Negra e Negril. Terra boa, de boa comida, receptividade. Eita povo trabalhador!

É essa terra que acolheu João Cândido, Zeca Pagodinho, Joãozinho da Gomeia, Joãozinho Trinta, Jorge Amado. Da grafiteira Lu Brasil, do Slow da BF, do Marcão da Bxd, do dj Nino (campeão mundial de DJ), de Roberto Precioso (artista plástico), de Lanna Rodrigues, de Lud (do audiovisual), de José Cicero pintor, de Átila Bezerra, Dudu de Morro Agudo e tantos outros e outras que estão por aqui lutando e construindo nossa cultura. Como pensar que um território que, na década de 70, abrigou tantos festivais hoje se encontra invisibilizado no brilhar da Cultura? Mas essa é a cultura que resiste na divulgação do boca a boca, em redes.

Aqui “falta Cultura” (só porque muitos e muitas saem daqui pra sobreviver), falta Política Pública, falta Gestão. Mas sobra em potenciais artistas nas suas múltiplas manifestações da arte, sobra leveza e interesse em viver aqui e investir aqui, e dar conta da aridez desse território. Nesse cenário que falta muita coisa pra fazer o moinho andar, parabenizo (ainda em tempo) cada cidadão e cada cidadã que não deixou faltar o respiro, o sopro, a arte e o suor que fazem esse território, de Magé a Seropédica, existir, resistir e florescer nos muros, nos pubs, nos palcos, nas praças e nas calçadas. Viva a Baixada Fluminense que me construiu e afeta – no sentido mais amplo e profundo do afeto – a cada um e cada uma que por ela tem a possibilidade de passar.

*Felipe Chehuan é musico, produtor e empreededor cultural.

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