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Derrotar o bolsonarismo no Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense

Por Juliana Drumond*

A entrevista de Marcelo Freixo ao podcast “Lado B do Rio” expressa um profundo conhecimento sobre a realidade do estado e a grave crise que o assola. O Rio hoje exporta para o Brasil um modelo miliciano de gestão do Estado. Esse modelo, como o próprio Marcelo menciona, já oprime 1 em cada 3 moradores da Zona Metropolitana. E esse dado não é um exagero.

A influência presente no Parlamento é tão evidente com uma série de milicianos eleitos nos diversos legislativos, que permite que até assassinos como Adriano da Nobrega sejam condecorados a luz do dia em plena ALERJ. No executivo, a influência é evidente no secretariado e na estrutura das prefeituras. É ativa a disputa política pelas máquinas públicas municipais pela milícia.

Mas sem dúvida o exemplo mais emblemático vem da Presidência da República. Bolsonaro expressa esse estado miliciano. Ele é a mutação das experiências que surgiram nos anos 90, e com raízes na ditadura militar, como foi tão bem relatado no recente livro de Bruno Paes Manso.

O que fazer diante disso? A saída da denúncia do atual quadro já foi amplamente explorada. O próprio Marcelo Freixo na CPI das Milícias que já tem mais de 10 anos demonstrou o que estava por vir. O próprio PSOL tomou essa luta como central na intervenção partidária. Entretanto, de lá pra cá a milícia só aumentou seu poder de influência.

Por isso temos acordo com a posição do Freixo ao afirmar que o que foi feito até agora foi importante, mas insuficiente. Afinal, o nosso sistema eleitoral não tem conseguido impedir que a milícia construa base eleitoral. Mesmo que a margem da lei, a milícia segue atuando e impedindo inclusive que demais candidatos circulem pelas áreas dominadas pelos “paramilitares”. Ou seja, o resultado eleitoral é artificialmente manipulado. 

Diante disso Freixo propõe uma frente ampla, com ele – Freixo – a frente de uma candidatura de Salvação do Rio de Janeiro. Amplíssima esta contaria representantes da direita que já estariam desconfortáveis com o avanço da milícia e seus aliados orgânicos.

A questão é: estaria a elite aliada da direita tradicional, que sempre se beneficiou dos acordos eleitorais com os milicianos dispostos a romper e partir para o enfrentamento com essas quadrilhas?

O recente jantar organizado por empresários para Bolsonaro indica que não. A impressão que fica é que os interesses desse empresariado se acondicionam com a gestão miliciana do Estado. E que no máximo estariam dispostos a aparar arestas com Bolsonaro e suas representações no território.

Por isso, é difícil imaginar que seus representantes, como Rodrigo Maia e Eduardo Paes sigam o rumo do enfrentamento as milícias e aos interesses na defesa da democracia ou de uma gestão republicana do Estado.

Portanto é muito importante se solidarizar com a indignação de Marcelo Freixo em diagnosticar a letargia das forças de esquerda em propor soluções para a crise que o Rio de Janeiro se encontra, isto é, governado por gente perigosa disposta a eliminar inimigos políticos, opressora do povo e ampliando seu poder a cada dia, haja visto as operações imobiliárias da zona oeste.

A esquerda é capaz de derrotar o bolsonarismo sozinha? O PSOL é capaz de vencer essa batalha sozinho? Obvio que não. Mas é possível lançar as bases fundamentais de uma proposta de frente ampla contra as milícias sem ter como base a unidade da esquerda? Ou mesmo abrir o debate sem uma militância pujante como a do PSOL? Também é importante dizer que não.

Não se faz uma mudança estrutural da sociedade de cima para baixo. Baseado em acordo de cúpula.

Por isso, a saída para os desafios do Estado do Rio de Janeiro apontado por Freixo deve iniciar no PSOL e ter como locus a sociedade civil organizada, os movimentos sociais, partidos de esquerda, associações, ONGs e tudo aquilo que se compreende como progressista para depois se pensar numa ampliação que abarque os interesses da direita tradicional.

É verdade que essa compreensão de que o desafio colocado para o Rio de Janeiro em 2022 é derrotar a milícia e de que para isso seria necessário fazer alianças com a direita tradicional e como consequência fazer concessões a seu programa não é majoritário no PSOL.

Da minha parte digo que precisamos no PSOL assumir que o principal desafio é derrotar o bolsonarismo e seu projeto miliciano para o Brasil e por isso discutir seriamente uma frente ampla, com o que se chama de centro, já no primeiro turno em 2022. A verdade é que esse debate parece interditado aqui no Rio de Janeiro ou ocorre esporadicamente, sem organização, sem acúmulo e por consequência sem encaminhamentos.

Por isso meu apoio é no sentido de Freixo abrir esse debate no interior do partido para que ao final possa estar legitimado pelas instâncias partidárias. Ao mesmo tempo se deve criar uma mesa de diálogo com os partidos de esquerda e movimentos sociais que também coloquem essa questão e a formulação de um programa político que possa representar esse anseio pelo enfrentamento ao crime organizado.

A baixada clama por esse gesto. Nós da esquerda da Baixada Fluminense não podemos mais sermos convocados a defender as bandeiras da esquerda em 2022 e depois sermos relegados a ausência de serviços públicos do Estado e das prefeituras. Por que ao final ficamos nós aqui isolados, dispersos e abandonados.

Se a saída proposta por Marcelo Freixo não serve. Qual saída o real o PSOL do Rio de Janeiro oferece a população da Baixada?

O PSOL ainda é o espaço privilegiado para esse tipo de intervenção
Como militante na Baixada que sou, sei bem que o cenário que Marcelo Freixo aponta é a mais pura realidade e sua angustia são as mesmas de quem enfrentou o último pleito de 2020, mas deve-se evitar o método errado, mesmo a partir do diagnóstico certo. Por isso a saída continua sendo abrir o debate no interior do partido e dentro da esquerda.

*Juliana Drumond é mãe, professora, historiadora, dirigente sindical. Foi candidata a Vice-prefeita em São João de Meriti pelo PSOL.

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