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O Papa é pop…não poupa ninguém

Por Marcos Lord

Uma instituição de quase 1700 anos, que tem hegemonia na sociedade em nível global, que sobreviveu a diferentes modos de sociabilidade e que se adaptou perfeitamente ao atual modo capitalista de produção e reprodução da vida, essa é a igreja católica representada pelo atual Papa Francisco.

A recente polêmica com a possibilidade de bençãos aos casais LGBTQIA+ não é algo novo e o tema, invariavelmente, volta às manchetes dos jornais. Sim, a igreja ainda é midiática, e o atual Papa vem cumprindo uma agenda contraditória, já que em tempos recentes declarou que a igreja teria a responsabilidade de acolher homossexuais, embora agora lhes nega a benção.

A relação entre religiosidade, principalmente a cristã, e sexualidades nunca foi muito simples. A alegada crítica da bíblia com relação às pessoas LGBTQIA+ já é antiga e se não está desgastada pelo tempo é justamente pelo fato de que o tempo pesa a favor da ignorância. Os mesmos textos usados para condenar a homossexualidade deveriam também condenar outros comportamentos sociais – um dos mais tradicionais é o do livro de Levíticos, que traz uma série de preceitos morais e hábitos alimentares. A bíblia é um livro que, lido com os devidos cuidados de contextualização social e histórica, pode produzir significativas reflexões. Principalmente ao observarmos os quatro livros do novo testamento (evangelhos), que narram a vida de Jesus, considerado pelos cristãos como o Cristo.

Esse Jesus tinha uma vida que põe em xeque a opulência dos líderes religiosos atuais. Ele condenou com veemência a mercantilização da fé (João 2: 13-25), a vida de aparências contraditórias à essência (Mateus 7: 13-24), a discriminação de grupos sociais minoritários e sobretudo a acumulação de riquezas (Marcos 10: 21, Mateus 6: 19-21).

Não há menção explícita de homossexuais no novo testamento, mas é consenso entre autores críticos de uma revisão mais progressista da bíblia de que há casos a serem percebidos com significativa atenção, como o centurião romano que acolhia seu servo em seu leito (Lucas 7) e mesmo Lázaro, que numa cultura patriarcal vivia solteiro com suas irmãs (João 11: 17).

A opção da igreja, e não somente a católica, por manter a discriminação de pessoas LGBTQIA+ é por seu primado de uma hegemonia como liderança de um segmento da sociedade conservadora, patriarcal, misógina, sexista e classista. Há muito tempo que a igreja cristã deixou de fazer opção pelos pobres e ser povo de Deus.

Há figuras isoladas e que, como profetas solitários, desafiam o poder clerical gritando como Amós. Do interior de suas pequenas paróquias, ou mesmo com martelo em punho debaixo de viadutos, gritam sem conseguir eco nas catedrais.

As contradições da igreja são muitas e na maioria das vezes elas se mostram maus diante de seu silêncio obtuso que de suas palavras e notas irrelevantes. A essência se perdeu diante da aparência. No Brasil ainda se espera pelo renascimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), mas não se iludam, isso não ocorrerá. As CEBs foram o nascituro, que se não podia ser abortado foi morto a mingua pelo abandono à própria miséria da sociedade.

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