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Ines Etienne: a única sobrevivente da Casa da Morte

Por Camila Pizzolotto*

Conheci Inês Etienne Romeu por volta de 2013, quando eu tinha 23 anos, por intermédio da Juliana Dal Piva. Inês foi a última a ser anistiada, foi a única a sobreviver à Casa da Morte, em Petrópolis, onde presos da ditadura militar eram torturados até a morte, fazendo jus ao nome do lugar.

Na Casa da Morte, os torturadores, como Camarão, tinham o auxílio do médico Amílcar Lobo (que tinha como codinome a alcunha de “Dr. Cordeiro”). Após serem torturados, os presos recebiam cuidados de Lobo para que conseguissem sobreviver a mais sessões de tortura. Isso mesmo. O médico curava para que pudessem torturar mais.

Inês perdeu um dos seus melhores amigos, Carlos Alberto Soares de Freitas, para a Casa da Morte. Seus algozes disseram a ela que seu amigo havia passado por lá.

Foi estuprada, torturada. Como foi a única sobrevivente da Casa em Petrópolis, de primeira nem seus companheiros de organização acreditaram no seu testemunho.

Inês sofreu um ataque, em sua casa em São Paulo em 2006, onde perdeu massa encefálica e não conseguiu voltar a falar e se locomover como antes.

No dia em que a vi, era uma senhorinha com um olhar triste. Fazia fisioterapia e tinha uma casa típica de avó. Almoçamos peixe com purê de batata doce (foi ali que comecei a gostar de batata doce) e ela mostrou pra mim e pra Ju fotos da sua vida. Só respondia “sim” e “não” e algumas variações como “eu não quero falar sobre isso”. A faxineira a chamava de Inezinha.

Isso ficou na minha cabeça e até hoje aquele encontro ecoa dentro de mim, ainda aprendo muito com aquele dia.

Depois de ter lutado contra a ditadura militar, de ter sido torturada, estuprada; depois de ter sido deslegitimada, de ter perdido companheiros, de ter tentado se suicidar; depois de ter sofrido um ataque brutal mesmo após o regime militar, de ter perdido a fala, alguns movimentos – mesmo depois disso tudo – quando perguntada se havia atirado em alguém para matar, ela baixou a cabeça, constrangida, e com o maior peso do mundo, disse: “eu não quero falar sobre isso”.

Nem sob toda essa tragédia Inês cultuou a morte ou se orgulhou de ter empunhado uma arma para, ainda que fosse necessário, matar alguém.

Inês foi e é gigante. Já Camarão e Lobo, como Ustra e muitos outros, estão com suas memórias fadadas ao lixo. É muito pouco pro que fizeram. A História não é juíza de nada. O dia dos que cultuam a morte e a tortura tarda, mas chega – se conseguirmos nos mover.

*Camila Pizzolotto é doutoranda em História pela UFF.

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