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Putas: o estigma sobre aquelas que sentam e rebolam

Por Claudielle Pavão*

Gritaram-nos puta. Puta porque expomos nas redes sociais nossos corpos de biquini. Puta porque ao ouvir funk, sentamos e rebolamos. Puta porque queremos sexo sem compromisso. Puta porque reivindicamos nossas falas e não permitimos silenciamentos. Puta porque dizemos não. Puta. E qual o problema em ser puta?

Os estereótipos sobre a sexualidade das mulheres atravessam o tempo dominando corpos e desejos. Todos os dias nos levantamos de nossas camas traçando estratégias para lidar com as tentativas insistentes de deslegitimação de nossas escolhas e ações. A dicotomia entre a maternidade e a vida sexual ativa, a intelectualidade e a diversão, a trabalhadora e a puta são formas de controlar corpos, desejos e escolhas das mulheres. 

Na estratégia de nos distanciarmos desses estereótipos para sobreviver ao sexismo que viola a materialidade da vida, as nossas subjetividades perdem espaço, assim como a força necessária para nos conceder o prazer de vivermos quem somos. Ao celebrarmos nossos corpos, sexualidades e desejos, caímos na culpa de atender a urgência das normatividades impostas, sob o risco de perdermos o sustento e as redes de sociabilidade. 

Logo, temos uma certeza escancarada: a liberdade não é uma realidade concreta para a maioria das mulheres. E por isso criamos meios de nos distanciarmos dos gritos ou cochichos de “puta!”. Entretanto, eles permanecem. Inclusive dentro das nossas cabeças, porque todas as vezes em que nos colocamos contra a estrutura machista, somos as putas.

Alguns grupos organizados negam a urgência de debatermos o assunto, mas os desdobramentos sobre ser “puta” tem grande impacto na vida das mulheres, principalmente das trabalhadoras sexuais. Este termo e todos os significados que ele comporta são instrumentalizados para a precarização do trabalho das prostitutas. 

A necessidade de preservarem suas identidades, e atuarem na clandestinidade, demonstra o peso social do trabalho sexual. O estigma atravessa a vida dessas mulheres, criando barreiras em suas relações pessoais ao exigir que elas escondam a atividade que lhes garante o sustento. Cobrar por aquilo que deveria ser dado é uma afronta ao patriarcado, e essa afronta tem consequências.

Diferente do lugar de vítima ao qual tentam confiná-las, as prostitutas têm enfrentado o estigma de ser puta e lutado por direitos organizando-se enquanto categoria e produzindo saberes a partir de suas experiências. E não se trata de algo recente, pois isso ocorre no Brasil desde o início dos anos 1980. Dentre as principais demandas debatidas pela categoria, a violência policial, a regulamentação da atividade e o fim do estigma seguem como temas relevantes para essas trabalhadoras há mais de trinta anos. 

É importante nos atentarmos que a luta pelo exercício da prostituição atravessa a vida daquelas que trabalham em outras ocupações que não tenham relação com o trabalho sexual. Não por sermos todas iguais, e muito menos porque a prostituição é um trabalho como qualquer outro. Mas sim porque enquanto mulheres trabalhadoras sabemos das especificidades de nossos serviços, e que as nossas experiências devem ser levadas em consideração nas lutas. E porque ser “puta” tem grande peso sobre a legitimidade do que fazemos dentro ou fora do nosso ambiente de trabalho, sendo trabalhadora sexual ou não.

É hora de todas as mulheres trabalhadoras, putas ou não, conhecerem o putafeminismo, uma das vertentes feministas construída por prostitutas que militam pelos direitos das trabalhadoras sexuais. Como Monique Prada disse em um trecho de seu livro Putafeminista, “o estigma tem sido uma das estratégias mais eficazes de dominação patriarcal; para que mantenha a eficácia, é preciso deslegitimar a palavra das putas (…)”.

Conheçam a luta das trabalhadoras sexuais.

*Claudielle Pavão é Professora de História da rede municipal do Rio de Janeiro, doutoranda em História pelo PPHR/ UFRRJ e faz parte do Coletivo Professora Nádia Felix.

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