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Eleições subnacionais da Bolívia em perspectiva: afinal, o MAS venceu?

Por Maykon Santos*

No domingo, 07/03, ocorreram eleições para governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores na Bolívia. Foi a primeira eleição na Bolívia após o MAS retornar ao poder em 2020, revertendo o golpe de estado feito pela extrema-direita com o apoio das Forças Armadas e da Guarda Nacional (as nossas PM’S) após fissuras no bloco de poder entre o MAS e as Centrais Sindicais, em especial a COB. Sendo assim, a primeira pergunta que vem à cabeça é se o MAS venceu, ainda mais após a prisão de uma das principais líderes golpistas

Jeanine Áñez de um lado e a eleição esmagadora de Luiz Camacho, outro e, possivelmente maior, líder golpista como governador de Santa Cruz. Entendemos que essas questões para terem uma resposta satisfatória precisam por a eleição de 2021 em perspectiva com as últimas eleições na Bolívia, principalmente com as eleições gerais de 2014, 2019 e 2020 e a última eleição subnacional de 2015.

Assim, o primeiro elemento que queremos destacar é que a eleição de Evo Morales, em 2005, provocou uma recombinação de forças na Bolívia. A esquerda sócio-liberal/ social-democrata, a direita liberal e a direita conservadora e federalista (hoje separatista) se unem na oposição ao MAS quando antes disputavam o poder por décadas. O segundo é que desde a fundação do MAS em 1997 não havia cisões no polo que defende o socialismo. Mas agora em 2021 se formou o Jallalla Bolívia, principalmente na região de La Paz, sob a liderança da senadora Eva Copa que rompeu com o MAS após não ter a indicação do partido para concorrer à prefeitura de El Alto.

Antecedentes

A primeira tarefa para colocarmos as eleições de 2021 em perspectiva é saber como o MAS estava nas eleições gerais de 2014, 2019 e 2020. Ou seja, na eleição do golpe, e na eleição anterior e posterior.

Nas eleições de 2014 o MAS elege Evo Morales com 61,3% dos votos e obtém 25 senadores (um a menos do que em 2009) e 88 deputados (mesmo número de 2009). Ou seja, mantém o padrão de votos e espaço parlamentar de 2009, que por sua vez representava um enorme crescimento com a primeira eleição de Morales na qual ele obtém 53,5% e o MAS elege 72 deputados e 12 senadores.

Já o período entre 2014 e 2019 é tumultuado no MAS que, por não conseguir escolher o sucessor de Evo, aposta em um referendo em 2016 para permitir mais uma reeleição de Evo. E perde nas urnas, o povo boliviano rejeita mais um mandato por 51,3% contra 48.7%. Mesmo assim, o MAS aposta em reconduzir Evo ao poder e consegue em 2018 autorização da Justiça Eleitoral para tal.

Em 2019 Evo consegue menos votos dos que foram favoráveis à sua recondução no referendo, 47,1%. Mas por ter acima de 10% de diferença do segundo colocado (Carlos Mesa com 36,5%) e mais de 40% dos votos válidos é reeleito. O MAS também cai na eleição da bancada com 67 deputados (o menor número desde 2002) e 21 senadores. A oposição alega fraudes e a extrema-direita dá um golpe de estado com o apoio velado da direita liberal e Carlos Mesa.

Assim, durante um ano o MAS consegue conduzir uma oposição ao golpe e retorna ao poder em 2020 com Luiz Arce que obtém 55,11% dos votos (8% a mais do que Evo em 2019) e o MAS também cresce sua bancada elegendo 75 deputados e os mesmos 21 senadores.

Destaco também o crescimento da extrema-direita. Em 2019 seu representante é Chi Hyun Chung do tradicional Partido Democrático Cristão com 8,8% e elegem 9 deputados e nenhum senador. Já em 2020 disputam com Luiz Camacho e obtém 14% dos votos, elegem 4 senadores e 16 deputados.

As eleições de 2021

Como vimos, o MAS chega às eleições subnacionais de 2021 recuperando terreno em relação à 2019 na sociedade. Mas vendo uma ruptura no estado de La Paz com a criação do JALLALA LP. E a extrema direita também chega mais forte.

Lembro também que em 2015, última eleição subnacional da Bolívia, o MAS elegeu 6 governadores (Oruro, Pando, Cochabamba, Potosi, Chuquisaca e Beni). Já a oposição elegeu La Paz, Santa Cruz e Tarija. Como também fez 227 dos 336 prefeitos. E para os governos o MAS fez 41,7% dos votos válidos, contra 20,8% da direita conservadora e separatista (principalmente em Santa Cruz) e 14,7% da direita liberal.Também cabe destacar que o MAS não tinha a prefeitura das 4 maiores cidades da Bolívia (Santa Cruz, La Paz, El Alto e Cochabamba) que juntas contam com quase 1/3 da população.

Isso posto, até aqui o MAS ganhou 3 estados no primeiro turno (Cochabamba, Potosi e Oruro) e foi para o segundo turno em primeiro em 3 estados (Tarija com 38,2%, La Paz com 39,7% e Pando com 41%) e em segundo em outros dois (Chuquisaca com 39,2% contra 45,6% do Chuquisaca Somos Todos, direita liberal). Em La Paz o segundo turno é contra a dissidência JALLALLA LP. Já em Tarija é e em Pando contra a direita liberal. Assim, o MAS poderá eleger entre 3 e 7 governadores, com grande probabilidade de eleger 6 ganhando La Paz e Tarija em relação à 2015 e perdendo Chuquisaca e Beni. O outro estado comandado pela oposição é o reduto da direita, Santa Cruz, cujo MAS nunca governou nem o estado e nem a capital de mesmo nome.

Em termos de eleitores Tarija e Chuquisaca se aproximam (cerca de 400 mil). Mas La Paz é imensamente maior do que Beni. La Paz é o maior estado da Bolívia com 1,9 dos 7,1 milhões de eleitores. Quase a mesma quantidade do histórico estado comandado pela oposição de Santa Cruz. Já Beni tem apenas 274 mil eleitores. Por fim, o MAS obteve 2,345 milhões de votos em 4,450 de votos válidos. Ou seja, cresceu de 41,7% para 53% dos votos válidos.

Por fim, se nas grandes cidades o MAS não conseguiu avançar ficando novamente sem eleger nas 4 maiores ao menos a dissidente Eva Copa, quadro histórico do MAS, do JALLALA LP, venceu em El Alto, a terceiro maior cidade da Bolívia.

Sendo assim, colocando as últimas eleições em perspectiva, podemos afirmar que o MAS venceu as eleições municipais, pois aumentou sua votação em relação à eleição de 2015, recuperou o governo de La Paz, maior estado do país, e tem uma aliada no governo de El Alto, terceira maior cidade. Tal vitória vem após o retorno ao governo federal, que já significa maior votação no MAS do que em 2019.

Por outro lado, vemos emergir uma direita mais radical com o Creemos ganhando o governo de Santa Cruz estado e cidade após aumentar seu espaço no senado e na Câmara, sendo possível vir a ser a principal força opositora suplantando a direita liberal.

* Professor de História das redes municipais de Santos e Cubatão, militante da Primavera Socialista/PSOL e do Círculo Palmarino

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