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8M: um dia de encontro (mesmo não presencial)

Por Carolina Peters*

As operárias estadunidenses foram as primeiras a dedicar uma jornada de luta às reivindicações femininas, o chamado Woman’s Day [Dia da Mulher]. Mas foi apenas em 1910, durante a Segunda Conferência das Mulheres Socialistas, que a revolucionária alemã Clara Zetkin propôs uma celebração internacionalista, e sugeriu ainda a mudança do qualificativo para o plural. Assim surgia o Dia Internacional das Mulheres, ainda sem data definida, tendo como principal demanda o sufrágio, não como concessão civil a senhoras proprietárias e damas ilustradas, mas conquista de direitos políticos também para as mulheres das classes trabalhadoras.

A definição do 8 de Março só viria em 1917, quando uma grande manifestação de mulheres russas – trabalhadoras fabris e donas de casa, mães, irmãs, esposas e filhas de soldados – tomou as ruas contra a fome e contra a guerra, dando início à Revolução. “Era um verão escaldante, um verão crucial da maré de inundação revolucionária em 1917!”, escreveu em sua autobiografia Alexandra Kollontai, que não deixou de sublinhar sua presença também na sucessão de eventos daquele ano – se prestarmos atenção, vemos nas fotografias históricas, entre a multidão, as tantas cabeças cobertas por lencinhos brancos, quando não imaginamos no matiz de cinza um tom vermelho, em apoio explícito aos bolcheviques. Um século depois, nossos lenços foram tingidos de verde e não cobrem apenas as cabeças. Antes que máscaras fossem necessárias para nos proteger de um vírus quase tão letal quanto governos de extrema-direita e os interesses do capital, os paninhos verdes podiam nos cobrir o rosto, nos resguardando da perseguição policial e das bombas de gás. Mas não só isso. Os pañuelos, sobretudo, se erguem nos punhos cerrados em luta por autonomia e igualdade.

Conquistado o voto, permanece o sentido originário da data criada pelas socialistas: queremos a participação plena das mulheres – trabalhadoras da produção e donas de casa; brancas, negras, indígenas; cis e trans; com deficiência;  lésbicas, hetero, bissexuais; mães ou não… tão plurais quanto a gente queira e possa ser – na vida pública, nas decisões políticas em todos os níveis, nos rumos assumidos pela sociedade. Se este ano não podemos aglomerar, não deixamos de nos manifestar coletivamente, mesmo em isolamento.

Hoje, no Brasil, reivindicamos o retorno do auxílio emergencial estabelecido como uma renda cidadã, da vacinação imediata da população e da derrubada do governo genocida de Bolsonaro, patrocinado pelos militares. O Brasil caminha rumo às 300.000 mortes por Covid-19, e cada uma dessas vidas perdidas não pode ser creditada à virulência da doença, pois é em primeiro lugar fruto da negligência, quando não da ação deliberada, daqueles que hoje governam o país. Para as feministas, está em questão a priorização da vida e defesa dos nossos vínculos comuns (entre os sujeitos, e entre nós e o mundo), contra o “salve-se quem puder enquanto fazemos de tudo para salvar o capital” (que, aliás, conta com o apoio de quase 1/3 dos brasileiros). Nos queremos vivas, fortes e livres.

As pautas feministas e cada reivindicação imediata expressam o desejo de uma existência diferente. Digo desejo não como anseio utópico, mas no sentido de uma força vital que nos move em direção à realidade para modificá-la. 8 de março é um dia de encontro do nosso passado, presente e futuro. Um dia para celebrar a vida que vale a pena viver, sem opressão e exploração, que nos propomos a construir; um dia para reafirmar nosso papel na história.

*Carolina Peters é militante feminista e mantém o Instagram Sistema Literário 

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