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As mulheres não interpretaram o Brasil?

Por Carolina Peters*

Uma vez decidi abrir alguns volumes sobre pensamento brasileiro, coletâneas dedicadas ao que se chamou “Intérpretes do Brasil”, que tinha em casa. Nenhuma autora citada. Quando se limitavam ao cânone do cânone: Os sertões; Casa-grande e senzala; Raízes do Brasil… vá lá. Mas conforme o recorte temporal e o rol de autores se ampliava, incluindo contribuições inclusive menos sistemáticas ou mais específicas, e a lista permanecia exclusivamente masculina, como se em um século nenhuma mulher houvesse escrito nada de relevante sobre o Brasil… ah, vá!

Soube pela Rede Munhando que uma antologia dessas, publicado outro dia mesmo, tinha apenas DUAS mulheres entre sei lá quantos. Duas, gente? Não tivemos nada de relevante a dizer sobre o Brasil? Não escrevemos nadinha?

Claro que escrevemos. Desde lá, reuni uma pequena lista (algumas conheço mais, outras quase não li), vou postar aos poucos, mas QUERO MUITO RECEBER INDICAÇÕES DE VOCÊS.

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES: Nascida em Portugal, seu pai foi um anarquista, que abrigou refugiados da Guerra Civil Espanhola, em plena era Salazar. Chegou ao Brasil em fevereiro de 1954, com seu primeiro marido e um diploma de matemática. Trabalhou na elaboração do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e, durante a ditadura civil-militar, enquanto esteve exilada no Chile, trabalhou no ministério da economia do governo Allende.

Não custa dizer que, sem dúvida, aprendeu coisas mais interessantes no Chile que o nosso atual ministro da economia, que esteve lá também, mas tomando lições da ditadura de Pinochet.

Quando decidiu estudar economia, em 1957, debruçou-se sobre Celso Furtado, Caio Prado Jr. e Ignácio Rangel, que chamou sua atenção para o problema do capital financeiro. “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro”, publicado em 1972 e escrito enquanto chefiou a Cepal no Brasil, é seu principal trabalho. Escreveu também sobre desenvolvimento e a globalização. A entrevista – icônica – dela ao Roda Viva está completa no youtube, dá pra encontrar aulas inteiras gravadas também.

*Carolina Peters é militante feminista e esse texto foi retirado do Instagram Sistema Literário mantido por ela.

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