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Mulheres de esquerda na política

Por Juliana Drumond*

Quando nos debruçamos sobre os dados das últimas eleições percebemos um avanço na participação das mulheres na disputa política. Entretanto, esses dados mostram que há ainda muito que se desbravar diante da sub-representação das mulheres na política brasileira. Vale ressaltar que, mesmo sendo 52% da população brasileira, as mulheres são apenas 15% do Congresso Nacional. Sobre nós, se coloca a dupla tarefa: diminuir a sub-representação de mulheres nos espaços de decisão e colocá-las no centro dos debates das principais lutas da esquerda, como derrotar Jair Bolsonaro e a política econômica genocida de Paulo Guedes.

Há tempos estamos discutindo e mostrando a necessidade de que as mulheres estejam presentes nos espaços de construções coletivas e também nos espaços de todas as decisões de poder. Garantir a presença das mulheres nesses espaços com uma atuação que não seja vista como cota, como fake, é entender que essas mulheres que se dispõem a essa construção estão, em quase 100% das vezes, sobrecarregadas. Ao longo do processo histórico temos contado com mulheres de luta organizando os diversos movimentos sociais, mas isso pouco se refletia nas posições de liderança. Um processo que, graças à luta das mulheres, tem mudado ano após ano.

As eleições de 2020 servem como um marco para pensarmos esse cenário. Nesse pleito, não tivemos um grande número de mulheres candidatas nem eleitas, entretanto, foi o maior índice obtido até hoje. Chama atenção que nessas eleições tivemos um protagonismo de mulheres negras e/ou lgbts nessa disputa e com votações expressivas. No que diz respeito ao PSOL, tivemos algumas candidatas com expressivas votações chegando, a ser as mais votadas em suas cidades.

Esse cenário mostra um avanço na luta das mulheres na construção de uma política mais diversa e mais inclusiva. Um avanço que não se deu só pro lado de cá. Na direita e no centro, esse debate também está avançado. Do nosso lado, a esquerda, o que percebemos é que estamos avançando em colocar na disputa política eleitoral um acúmulo que temos construído nas nossas estruturas internas partidárias.

O que se coloca como desafio para nós, pós-eleições, é no sentido de instrumentalização das nossas lutas pelos mandatos conquistados e nesse sentido essa conquista eleitoral é vista por mim como meio e não fim em si próprio. E como eixo fundamental para a construção e ampliação das lutas no nosso campo. As pautas de lutas dos movimentos de mulheres, a luta pelo legalização do aborto, a luta pela vida das mulheres passa hoje por derrotar Bolsonaro, garantir o auxilia emergencial e a vacina para todas e todos.

Essas construções no âmbito da esquerda só se darão de maneira efetiva se garantirmos que esse protagonismo das mulheres no pleito de 2020 se capilarize nas nossas construções de base, nas organizações de mobilizações, nas nossas estruturas partidárias.

Precisamos do acúmulo da atuação das mulheres no último pleito como candidatas, como articuladoras, como militantes para colocar o nosso olhar e nossa vivência, para a construção da esquerda e isso passa desde ocupar e fortalecer nossas estruturas internas partidárias à fundamentalmente protagonizar a construção do um programa de esquerda de massa e com a massa. Nossa melhor tática de projeção eleitoral, no atual cenário, é aproveitar os saldos do último pleito para organizar a esquerda no chão de nossos territórios.

No fundamental, nós mulheres de esquerda, temos o desafio de junto as pautas históricas das mulheres e colocar no centro do debate o projeto socialista e a disputa da política econômica. A luta contra o capital precisa chegar, enquanto programa, à massa da população e a atuação das mulheres na esquerda é central para essa construção.

É nosso papel ocupar os grandes debates de conjuntura, discutir estratégias para a unificação da esquerda e construir coletivamente alternativas à crise que assola o nosso país. Para nós mulheres de esquerda, a tarefa é ser protagonista na construção de uma alternativa socialista de sociedade que leve em conta as intersecções de classe, gênero, raça.

*Juliana Drumond é mãe, professora, historiadora, dirigente sindical. Foi candidata a Vice-prefeita em São João de Meriti pelo PSOL.

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