Editorial

Notas sobre a tática da resistência

Da Redação

Jair Bolsonaro faz política o tempo todo. Desde que assumiu a presidência em 2019, se comporta como um político profissional, o que tem sido nos últimos 30 anos, pelo menos. Não é de se impressionar que mesmo diante de um quadro de aprofundamento da crise social, as pesquisas são unânimes em colocar a aprovação do seu governo na casa dos mais de 30%. Se isso não é o suficiente ainda para uma reeleição é para o manter no páreo, coesionar a sua base, cumprir ao menos parte de suas absurdas promessas e ficar no jogo até 2022.

Só se combate um governo e personagens desse tipo com táticas diversificadas. Pois são de táticas diversificadas que o Governo Bolsonaro vive e sobrevive. Portanto, nunca é demais dizer que só se combate Bolsonaro com luta política. E a luta política envolve paciência. E paciência não se confunde com uma imagem passiva ou pacífica de quem está sentado no trono de um apartamento esperando a morte chegar. É com paciência que se faz guerra de nervos. É com paciência que se constrói um plano efetivo, um contra-ataque seguro.

Dizemos com certo ar de superioridade que o “apressado come crú”. Ele rebate com um sorriso de canto de boca de que o boi que chega primeiro ao riacho “bebe água limpa”.
Contudo, é importante dizer que mesmo que se chegue rápido não há água limpa para beber.

A política costuma premiar quem tem as melhores táticas mas há sempre o imponderável. Não devemos nos impressionar com as derrotas, muito menos com as vitórias. O inimigo nos estudou o suficiente para o combate. Nós ainda estamos de olhos vendados e no escuro. Eles lutam em melhores posições e sempre foi assim.

Nós apenas ficamos estupefatos com as constantes sandices de Bolsonaro, o desdém pela vida das pessoas, o descaso com a economia, com o emprego e a renda dos trabalhadores. É claro que não podemos naturalizar tais condutas, mas após o espanto é preciso reflexão e ação, não desespero. Análises catastrofistas, desesperadas ou mesmo as supostamente pragmáticas não têm nos servido.

Nesse sentido há concordância de que cada palmo conquistado do território inimigo é importante. Mas é preciso cuidado: pode-se conquistar um campo minado. Por isso é preciso guerrear pela posição sem perder de vista o movimento, a tática a serviço da estratégia.

Muitos entre nós ainda estão perdidos, desanimados, desiludidos mas, acima de tudo, vejo que estão inconformados. A vanguarda precisa injetar política no inconformismo para que este se torne uma força material. E que contagie gente.

Uma esquerda que não participa minimamente de uma eleição precisa se debruçar seriamente sobre os seus propósitos. Não que a eleição seja o clímax da luta política, isso já se sabe. Contudo, a eleição no Brasil, pelas suas características próprias, em que milhões terão que necessariamente comparecer às urnas de dois em dois anos, não é algo menor que se deve jogar fora.

A direita brasileira compreende isso melhor que ninguém e há muita gente na esquerda que reflete sobre isso há décadas: o que impressiona é que tanta gente boa de esquerda ainda resiste a adentrar uma campanha eleitoral de corpo e alma, em defesa de candidaturas e processos em que se acredita. E isso é muito sério e diz muito sobre que tipo de debate político devemos fazer para virar o jogo e acumular para uma derrota estratégica da direita e da extrema direita no Brasil e na América Latina.

Como derrotar a extrema direita se somos incapazes de contribuir com os nossos camaradas mais próximos numa pequena panfletagem, colocar um adesivo no veículo, ajudar numa vaquinha, pedir voto para amigos e familiares? Já se sabe que o ativismo de rede é muito importante mas se ele não se transportar em algum nível para a vida material, nada feito.

Diversas análises sobre os números das eleições já foram feitas e conseguiram dar conta, ao menos em parte, da nossa opinião. Em síntese, é preciso dizer que há um enfraquecimento eleitoral da esquerda em geral e do PT e do PCdoB, em particular. O PSOL sai fortalecido em números de eleitos e população governada, embora não tenha conseguido um desempenho forte em números de votos absolutos no geral. Ainda preso às votações nas maiores cidades e com dificuldade de enraizamento nos interiores, embora se possa dizer que há um consistente crescimento do referencial do partido, principalmente junto aos jovens identificados com a esquerda.

E no caso a eleição da presidência da Câmara dos Deputados que tem sido parte do debate entre as esquerdas nos últimos dias?

A bancada do PT, por exemplo, tomou por maioria decisão de apoiar o candidato de Rodrigo Maia, Baleia Rossi (MDB-SP), contra o candidato do governo, Artur Lira (PP-AL). No PSOL há um divisão na sua bancada de 10 deputados federais. Essa eleição se reveste de caráter tático, pois há quem diga que na hipótese de vitória do candidato de Bolsonaro haveria um aprofundamento da política institucional do bolsonarismo. O fato é que as duas principais candidaturas são de direita, apesar de que se convencionou chamá-las de “centrão”. O que a grande mídia chama de centro nos últimos anos é a verdadeira direita.

Na prática as duas candidaturas são expressões distintas do mesmo fisiologismo parlamentar crônico. O que diferencia esses dois é, sobretudo, o momento de dramaticidade. Aliás, a carga de dramaticidade tem sido impressa em praticamente todas as decisões importantes tomadas pelas esquerdas nos últimos anos. O problema é que, seja em um sentido ou em outro, quase todas elas têm resultado em derrotas. Pois há aqueles que preferem escolher a forma de como perder e também os que já estão perdidos mas não se deram conta.

No fundo, são também expressões distintas de um mesmo sintoma: a ausência de estratégia. Mas o fundamental é destacar que esse debate não deve tomar um caráter sectário, de reafirmação de posições divergentes, como se de um lado estivessem os pragmáticos e de outro os sonhadores, como se nenhum dos lados tivessem uma vaga ideia do terreno que estão pisando. Ambas as posições são legítimas. Mas é preciso que se assuma consequências.

Temos defendido uma candidatura de esquerda que possa aglutinar um bloco parlamentar de resistência, que possa fazer um debate público em torno de pautas fundamentais como soberania nacional e de defesa de direitos, sem se misturar com a geléia geral que é a política parlamentar tradicional.

Em síntese, temos insistido que sem estratégia não haverá vitória possível, nem eleitoral e nem política. Vitória política é acúmulo de força para a tomada do poder e tomada do poder significa exercitar uma democracia da maioria dos explorados. É importante dizer que a vitória no atual quadro deverá passar também por estratégias não convencionais de luta política. Medidas de força serão necessárias em algum nível. A direita e a extrema direita estão dando o recado direto nos Estados Unidos. No Brasil os sinais de que se desenha caminho similar são fortes. É preciso captá-los.

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