BrasilNotícias

Mil dias sem respostas: Quem matou e mandou matar Marielle Franco?

Por Claudielle Pavão*

No dia 08 de dezembro de 2020 completamos mil dias sem respostas sobre a execução da vereadora Marielle Franco, eleita pelo PSOL em 2016, e responsável por acompanhar a Intervenção Militar na cidade do Rio de Janeiro, em 2018. A intervenção decretada pelo então presidente Michel Temer, em 19 de fevereiro de 2018, colocou nas ruas da cidade militares com o objetivo de frear o avanço do crime organizado.

Um mês depois, a vereadora e seu motorista Anderson Gomes, foram assassinados no carro após uma emboscada, quando saíam de um evento na Casa das Pretas.

O acirramento bélico em que o estado do Rio se encontra, principalmente após a candidatura do então presidente Jair Messias Bolsonaro, tem se fortalecido tanto no âmbito concreto, com o avanço de ameaças e mortes por armas de fogo, quanto no viés simbólico. É aterrador o número de denúncias de militantes dos Direitos Humanos acerca dos discursos de ódio que se propagam nas redes sociais contra negros, mulheres, LGBTQI+ e comunistas, principalmente quando relacionado ao aumento e fortalecimento de grupos supremacistas brancos.

Enquanto as investigações sobre o crime político avançam lentamente, apesar da polícia já ter seus suspeitos de envolvimento no crime, não podemos dizer o mesmo a respeito da insegurança e do risco de morte para quem vive e/ou luta em/pelos territórios conflagrados. Só no ano de 2020, vinte e duas crianças foram atingidas por bala de fogo, sendo que doze vieram a óbito. Fala-se em efeito colateral para a garantia da segurança, mas os dados com o perfil de quem mais morre em operações policiais, segundo o Mapa da Violência, apresentam os corpos negros como os matáveis para esse tipo de política.
Deputadas e vereadoras negras que pautam a luta antirracista aliada aos direitos das mulheres e LGBTQI+ estão sob constantes ameaças. A deputada Talíria Petrone, amiga de Marielle, precisou mudar de estado para garantir a segurança de sua família, sendo impedida de exercer o voto nas eleições municipais de 2020. Benny Briolly, vereadora pelo PSOL em Niterói, também recebeu ameaças de morte em suas redes, chegando a ser intimidada nas ruas da cidade.

Se para Nina Simone, liberdade é não ter medo, concluímos que nunca fomos livres. O Brasil é o terceiro país no ranking de assassinatos de ativistas ambientais e dos direitos humanos, segundo o relatório da ONG Global Witness. A defesa dos Direitos Humanos, como exemplarmente Marielle fez em sua trajetória, coloca em risco a vida daquelas e daqueles que reconhecem a força de suas vozes e ações contra a estrutura racista, misógina e capitalista que assedia, tortura e mata todos os dias.

As ameaças contra a vida das mulheres que ousam construir novas relações de poder, garantindo a construção coletiva de políticas públicas com a participação das populações historicamente violentadas evidenciam dois pontos: a potência de garantir direitos para todas/os e a necessidade de uma maior articulação para garantir a segurança de militantes e mandatos que defendem os Direitos Humanos.

Há mil dias a família e as/os companheiras/os de luta choram a morte de Marielle Franco. São mil dias reivindicando resultados nas investigações. Mil dias sem Marielle Franco, são mil dias que marcam a luta das mulheres por direito à vida dos corpos políticos.

*Claudielle Pavão é Professora de História da rede municipal do Rio de Janeiro, doutoranda em História pelo PPHR/ UFRRJ e faz parte do Coletivo Professora Nádia Felix.

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar