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De que modo a comida que você comeu na quinta-feira está diretamente conectada com o assassinato de Beto no Carrefour?

Por Camila Mattos*

Agora que a comoção passou é hora de pensar em alternativas.

O racismo é estrutura fundamental de nossa sociedade. Manifesta-se na gestão da vida e da morte. No Brasil (e no mundo), não existe capitalismo sem racismo. Nem supermercado sem esses dois. Supermercados operam como intermediários entre nós e os produtores. Além disso, é nos supermercados que encontramos alimentos ultraprocessados. Beto e sua esposa foram em busca de comida. Normal. Afinal, todos ou quase todos fazemos isso. É inclusive quase impossível pensar em boicotes de longo prazo quando falamos em redes de supermercado.

O único boicote possível aos supermercados envolve retomar o debate sobre a questão agrária no Brasil. Como despossuídos da terra que somos, encontramos nossa comida majoritariamente nas gôndolas de grandes mercados. Para que casos não isolados como os de Beto deixem de ocorrer, nós precisamos também encurtar as cadeias de produção que fazem com que a comida chegue na mesa em grandes cidades. É importante pensar em larga escala. Precisamos queimar Carrefour, mas não podemos queimar todos os supermercados porque morreremos de fome. Lembra da greve dos caminhoneiros? Está conectada também. Louco isso de como o todo é uma coisa só, né? O racismo encontra-se também na distribuição desigual da comida que limita a oferta, desnutre e tira a autonomia na hora de fazer escolhas alimentares conscientes.

Para ser possível realizar um boicote de longo prazo, precisamos pensar em alternativas de curto, médio e longo prazo. Afinal, os preços e a distribuição de/em cadeias mais curtas ainda parecem impeditivos para muitos. Aliás, aposto que muita gente nem sabe do que estou falando. A terra é o que gera alimento. Somos muitos os despossuídos da terra, mas entre os negros a falta de terra é muito maior. Sem terra para plantar, não temos comida. Se não temos comida, limitamo-nos a comprar onde tem. A compra onde tem nos torna reféns de mercados maiores que têm preços mais baratos porque compram em maior quantidade.

Mercados maiores possuem condições de pagar seguranças mais violentos que se sentem autorizados ao emprego de violência desproporcional. E, obviamente, racista. Tudo isso diante de nossos olhos, contando com o aval da sociedade. Não poderemos todos retornar ao campo porque não dá, mas podemos ganhar consciência sobre o modo como colocamos comida à mesa influencia no ambiente onde vivemos: grandes supermercados fazem com que gastemos mais plástico, fluxos mais cruéis com produtores, ultraprocessados, negros vigiados ao caminharem entre as prateleiras, torturados e assassinados.

Alimentos orgânicos viram fetiche e tornam-se encarecidos. Neste momento, o Estado e a Ministra da Agricultura não vão nos ajudar na missão: gostam de commodities, agrotóxicos e destruição da meio-ambiente. A reforma agrária não vai rolar tão cedo mesmo que eu tenha esperanças de vê-la um dia. Mesmo assim, precisamos falar sobre segurança e soberania alimentar.

O MST e os movimentos de pequenos agricultores podem ajudar na complicada missão de boicote ao supermercado. Há diversas outras alternativas, mas muitas ainda precisam de apoio para acontecer. Por isso, boicotar o Carrefour exige de nós uma postura responsável diante de nossos pratos de comida. Essa postura é melhor para todo mundo. Os produtores ficam melhores, a terra fica melhor, nós ficamos melhores. Tudo bem! Os supermercados não ficam, mas eu quero mesmo é que eles explodam.

*Camila Mattos é doutoranda em Ciência da Informação.

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