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O racismo asfixia: os gritos de consciência negra frente à necropolítica

Por Claudielle Pavão*

A estrutura racista e capitalista a qual estamos submetidas/os perfura cotidianamente as múltiplas experiências de ser negra/o, reforçando as violências que estamos expostas/os. O direito de saudar nossos ancestrais e celebrar a luta daquelas e daqueles que viveram e morreram sob condições de guerra contra o sistema de exploração e aniquilação de epistemologias e vidas negras nos é usurpado a cada 23 minutos.

Na véspera do dia da Consciência Negra, dedicado à luta de Zumbi dos Palmares, os familiares de João Alberto Silveira Freitas tiveram que chorar sobre seu corpo assassinado no supermercado Carrefour, de Porto Alegre. Funcionários do mercado espancaram e asfixiaram o homem negro de 60 anos até morte, enquanto ele implorava por ajuda.

Esse caso recente demonstra a continuidade de violências contra sujeitos negros torna explícito o fato dessas ações estarem longe de coincidências, mal entendidos ou acidentes. Os indivíduos negros não possuem o direito de baixar a guarda, a todo momento estão vigilantes da própria vida uma vez que a ameaça é estrutural, real e constante.

A sucessão de reportagens sobre homens e mulheres negros torturados a mortos revela a atuação da necropolítica através de estruturas de opressão muito bem engendradas na sociedade brasileira: o racismo e o capitalismo. Sejam adultos ou crianças, sendo seus algozes policiais, funcionários de lojas ou senhoras incomodadas com a presença do filho de sua empregada doméstica, o sistema de controle e violação dos corpos negros não vacila ao nos negar a vida.

Diante da notícia aterradora do assassinato de João Alberto, movimentos sociais antirracistas organizaram manifestações em diferentes cidades do país contra a rede de supermercados. Militantes negros de Porto Alegre, Caxias do Sul, São Paulo, Sorocaba, Jundiaí, Santos, São Vicente, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Salvador e Natal, expuseram o racismo em atos, discursos e cartazes.

As manifestações antirracistas com ampla divulgação tem sido um marco para 2020. O assassinato do estadunidense George Floyd pelo policial Derek Chauvin , em maio deste ano, provocou intensas e importantes manifestações contra o racismo em todo o mundo, inclusive no Brasil. As redes sociais potencializaram as articulações dos movimentos antirracistas, e o posicionamento de personalidades públicas, negras e brancas, em suas redes sociais, aumentou ainda mais o debate em torno do racismo e da violência policial.

Em contextos virtuais onde é possível expressar toda sorte de comentários, e ter suas considerações sobre temas variados compartilhadas diversas vezes, a narrativa que as pessoas negras brasileiras deveriam se inspirar nas manifestações estadunidenses ganhou força. Entretanto, o fato de manifestações antirracistas dos Estados Unidos ocuparem os principais veículos de jornal não faz desses movimentos algo inédito para os brasileiros.

É urgente que nos atentemos que a consciência negra não foi forjada nas últimas manifestações, muito menos que nos deixemos levar por considerações que não tem embasamento histórico, ou se referem apenas aos atos registrados, televisionados e compartilhados nas redes. Moradoras e moradores de favelas, por diversas vezes, são rechaçados por queimarem ônibus e por fogo em pneus ao reivindicar justiça para filhos, netos, sobrinhos e companheiros mortos nas incursões policiais . O que diferencia as manifestações é a maior projeção dos atos, as suas lideranças e a possibilidade de agregar mais pessoas ao expor, seja através de vídeos, fotos ou áudios, a letalidade do racismo.

Negar a mobilização de pessoas negras periféricas em nome de inspirações em métodos importados lança luz sobre a necessidade de desembaçar as vistas e observar as nossas próprias histórias de luta e resistência pelas ruas e vielas das cidades. Devemos nos manter firmes contra as estruturas que há séculos impõe aos corpos negros a dor, a exploração e a morte.

*Claudielle Pavão é Professora de História da rede municipal do Rio de Janeiro, doutoranda em História pelo PPHR/ UFRRJ e faz parte do Coletivo Professora Nádia Felix.

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