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Minha vida tem dono e não sou eu

Por Juliana Drumond*

A escrita, ainda que embasada em muita vivência, é uma escrita que tenho construído a partir de muito diálogo coletivo, leituras, pesquisas e, sobretudo, auxílio da ciência. Mas como não escrever na primeira pessoa quando a dor te corta na carne?

Essa semana tem sido de muita revolta e dor para nós mulheres. Como a justiça que deveria nos proteger nos coloca sob ameaça; ameaça nossas vidas e nossos corpos?  A Experiência de dor e violência vivida por Mari Ferrer me fez revisitar o como “estar sempre atenta” faz parte do nosso ser mulher.

Pra voltar da escola a pé sozinha às 17h precisa estar atenta; pra começar a ir a festinhas com os amigos da escola precisa de atenção total pra não ser dopada; pra trabalhar em shopping como promotora de vendas você não pode perder a atenção um minuto, porque senão você está à venda e nem sabe. Do nada – Ops! – uma passada de mão na bunda – e você só está ali trabalhando. Pra ser feirante você tem que estar atenta, porque se você for braba demais os homens que dividem a feira contigo podem não gostar de mulheres “ariscas”. Tem que estar atenta pra não ser abusada, mesmo dentro de um relacionamento. Tem que está atenta pra, como figura pública, o decote ou o tamanho do seu short não chamar mais atenção que você e o que tem a dizer. Temos que estar atentas o tempo todo, mas ainda assim não é suficiente. Seja no trabalho, na escola, na academia e muitas vezes na própria casa.

É preciso (sempre) estar atenta e forte. Não temos tempo de temer a morte…

O corpo que, com muita atenção, passamos a vida inteira tentando proteger não é nosso. Esse corpo foi expropriado por uma sociedade patriarcal que ignora o quanto, ainda que sem os mesmos direitos, avançamos. Chegamos lá compartilhando dores e nos apoiando. O que seria de nós se não fosse o “mexeu com uma, mexeu com todas”? É isso que nos faz formar novas gerações, lutar por políticas públicas, por mais espaços de representatividade e decisão, por mais mulheres na política. O “uma sobe e puxa  outra” é essencial pra assegurar que “não seremos caladas” – Marielle Presente!  Mas verdade seja dita, isso não é suficiente. Essa luta não é só nossa. É um fardo pesado demais pra nós que carregamos o mundo em nossos ventres ou em nossas costas.

Nós, enquanto sociedade, precisamos aprender com a luta das mulheres.  Precisamos entender que o, dito, estupro culposo é o machismo jurídico de uma sociedade patriarcal que nega às mulheres o fundamental direito ao seu próprio corpo. Isso não foi o fim, assim como o “Não te estupro porque você não merece” não foi o começo. E no meio disso tudo estamos nós, nossos sonhos, nossas vidas interrompidas.

Precisamos nos comprometer com o fato de que, por mais que eu ensine a minha filha de 6 anos a sempre “estar atenta”, isso não será suficiente. Não é suficiente pra mim. Não foi suficiente pra Mari Ferrer. Pra nós mulheres não é suficiente “estar atenta”.

Que a justiça cumpra o seu papel. E que não seja o de nos silenciar, nos punir, nos culpar. Mas que proteja nossas vidas e os nossos corpos.

Justiça por Mari Ferrer!

Justiça Por Marielle!

Nenhuma a menos!

*Juliana Drumond é mãe, professora, historiadora, dirigente sindical. Candidata a Vice-prefeita em São João de Meriti pelo PSOL.

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