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Sobre os 80 anos da morte de Walter Benjamin

Por Carolina Peters*

Há uma carta de setembro de 1935 em que Erich Auerbach, um importante filólogo e crítico literário judeu-alemão (seu livro Mimesis é leitura incontornável nos cursos de Letras), escreve a Walter Benjamin: “Há um ano pelo menos, quando se procurava um professor para ensinar literatura alemã em São Paulo, pensei no senhor”. Por aqui, era o período de formação da USP, por lá, da ascensão do nazi-fascismo. Auerbach, convidado a lecionar por aqui, preferiu emigrar para a Turquia e ficar mais próximo de casa, na esperança de que as coisas não levariam tantos anos pra se ajeitar. Benjamin, refugiado, passou por alguns países, mas não conseguiu deixar o continente. Uma professora me disse certa vez que os facsímiles das cartas revelam a precariedade da vida nesses dias, nos versos do papel, listas mirradas de compras e cálculos de pouco dinheiro. Conta Lisa Fittko, que conviveu com Benjamin nos últimos anos de exílio na França, em entrevista: “Todos nós tentamos, de uma maneira ou de outra, construir uma nova vida em Paris, e ele [Benjamin] tinha a vantagem de falar francês perfeitamente (algo que a maior parte dos intelectuais alemães era incapaz de fazer). Você certamente sabe que nós, emigrantes na França, nós fomos internados nos campos [existentes no interior do país] assim que foi declarada a guerra – e Benjamin, por acaso, foi para o mesmo campo que meu marido”. Este campo ficava próximo a Nevers e Benjamin esteve preso lá por três meses.

Há um livro muito bonito de Teixeira Coelho chamado HISTÓRIA NATURAL DA DITADURA (Iluminuras, 2006), uma espécie de ficção ensaística em 5 capítulos ou, antes, episódios. O primeiro deles se passa em Portbou, uma pequena cidade espanhola, na fronteira com a França, onde Benjamin faleceu em 26 de setembro de 1940, há exatos 80 anos, e foi enterrado como indigente. O narrador reflete sobre a morte do filósofo: que reflete sobre a experiência do exílio, a repressão ditatorial e a memória, sobre as teorias que buscam provar que seu suicídio fora acidental:《Na sua intervenção no congresso sobre Walter Benjamin em Barcelona, não muito longe dali, Ingrid Scheurmann propusera que se pensasse em Walter Benjamin de outro modo, como um homem que enfrentara um destino típico de seu momento e típico também daquele momento presente em que ela falava no congresso […]: o destino de refugiado. Daquele modo, pensei, quer dizer, dizendo-se que ele tivera um destino típico, retirava-se de Walter Benjamin a imagem de um destino pessoal e lhe era atribuído o símbolo de um destino coletivo, nos termos de um certo discurso ideológico que não termina de morrer e segue em vigor em determinadas esferas, latitudes e longitudes. Deviam pensar que esse era o modo digno de introduzir Walter Benjamin na História, ele que sempre se ocupara da História porém não nessa perspectiva. […] E de símbolo do refugiado, nessa operação típica dos congressos acadêmicos, passava-se em seguida à ideia de Walter Benjamin como símbolo do emigrado […] aquela proposição pelo cancelamento do indivíduo Walter Benjamin em favor da noção de símbolo desencarnado de uma História anônima, ele que no entanto tinha um nome, que sempre tivera um nome a ser novamente reunido a seus restos num cemitério ou pelo menos tivera seu nome recolocado numa lápide, me provocava náusea》.

*Carolina Peters é militante feminista e esse texto foi retirado do Instagram Sistema Literário mantido por ela.

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