Editorial

O povo desempregado e a base do Bolsonaro querendo isenção para as igrejas

Da Redação

Na semana em que Bolsonaro coloca em dúvidas a possibilidade de criação do programa Renda Brasil e retira direitos de idosos e deficientes, criando entraves burocráticos a concessão de benefícios, a base aliada do governo, com autorização do presidente, fecha um acordão para isentar igrejas de pagamento de tributos. A renúncia é da ordem de 1 bilhão de reais.

As igrejas evangélicas neopentecostais compõem o bloco político dirigente do atual governo Bolsonaro. A atuação dos pastores é um elemento central do peso eleitoral desse segmento. Não se tem dúvida do trabalho de base que fazem e que por isso são reconhecidos na comunidade como parte de uma rede proteção da sociedade, diante da ausência ou inconstante presença do Estado. Também não se tem dúvida de que estão longe de se contentar somente com o trabalho pastoral e espiritual. A grande maioria caiu de cabeça na política.

Por isso, a bancada evangélica na Câmara é uma das mais poderosas. Nos municípios a mesma coisa. A atuação dos pastores no âmbito das eleições é totalmente desregulada. É desproporcional criar inúmeras regras para sindicatos, deputados com mandatos, carro de som nas ruas, entre outras restrições e deixar correr solta a campanha nas igrejas.

Por isso, no editorial de quatro semanas atrás “A extrema direita defende pedófilos e persegue uma criança de 10 anos” nós, do VOZ, fomos a favor da tese de abuso de poder religioso no âmbito eleitoral que estava sendo discutido no TSE, infelizmente esse ilícito eleitoral foi desconsiderado pela principal Corte eleitoral do Brasil.

A isenção das igrejas, sobretudo evangélicas, não passa somente por um debate fiscal. Óbvio que a questão fiscal é importante. Num país de milhões de desempregados e que demanda um Estado que promova a dinamização da economia, por exemplo, com obras públicas. Um bilhão sempre fará falta.

Mas o debate é também sobre liberdade religiosa. No sentido de que essa cobrança de impostos, alguns argumentam, poderia sufocar as igrejas ao ponto de deixá-las impossibilitadas de prestar sua função de acompanhamento espiritual. Mas não é o caso.

Não é novidade que alguns pastores vivem em condições luxuosas. Carros do ano, casas maravilhosas. Tudo na condição de usufrutuário dos bens da igreja. Sem contar que determinadas igrejas se comportam como marcas no mercado religioso, investindo desproporcionalmente em propaganda para atrair fiéis.

E por fim, é preciso deixar claro, os valores a serem pagos serão na verdade injetados na política, gerando um desproporcional acesso a recursos a candidatos em detrimento de outros.

Infelizmente parte da esquerda, em especial o PCdoB e parte do PT, se posicionou de maneira equivocada e optou pelo projeto de curto prazo – sua base eleitoral em 2020 – e votou a favor das isenções. Isenção que com absoluta certeza irá ajudar algum ou outro templo sério a não fechar, mas que em significativa maioria irá irrigar charlatões da fé alheia e inimigos políticos do povo.

Bolsonaro dirige um governo forte, mas marcado por crises. A crise do Coronavírus não o derrubou como se imaginava. Os efeitos econômicos da Covid também não foram suficientes para colocá-lo no patamar de popularidade do impeachment. Mas ainda tem muita água para rolar e a subida do preço dos alimentos é um fator de muita preocupação do governo. Pois o pior cenário é garantir o fundo emergencial até o final do ano e esse valor ser tragado por uma espiral inflacionária, a ponto de a população não conseguir verificar melhora de vida.

Isso é decisivo, pois o desgaste para furar o teto de gastos, romper com receituário neoliberal de Guedes e ainda perder popularidade é a chave para a perda nas condições de governar. Isso explica em parte a posição dúbia de Bolsonaro em relação ao perdão da dívida às Igrejas.

Mas é preciso não se iludir. Tudo ainda são hipóteses. A base de Bolsonaro é forte e o capitão entrega ao mercado financeiro mais do que qualquer outro bloco político. Pelo lado do mercado financeiro ainda não há melhor opção que Bolsonaro.

Para a esquerda é preciso ser alternativa de poder. Para isso é mais que necessário um programa para governar os municípios. Esse programa deverá ter dois elementos: pesado investimento em serviços públicos e democracia participativa. Consequência disso, terá que ser capaz de se desvencilhar das amarras da lei de responsabilidade fiscal, não descartando uma ampla campanha nacional pela sua revogação e substituição por outro instrumento legislativo que promova a responsabilidade social.

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