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Negação do esquecimento, Julio Cortázar

Por Carolina Peters*

Além de contista exemplar e romancista (tenho algumas histórias afetivas com seu Rayuela, que eu li ou comecei a ler de jeitos, em momentos da vida e estando em cidades muito diferentes, potencializando aquilo que o livro já traz por sua própria composição que contém vários caminhos, linhas possíveis para acompanhar a narrativa), o argentino Julio Cortázar, nascido em um 26 de agosto de 1914, deixou uma expressiva obra crítica.

Seu escrito sobre teoria do conto (“Alguns aspectos do conto”, originalmente uma palestra conferida em Cuba) consta no currículo de vários cursos de Letras e é realmente uma ótima apresentação das características da narrativa breve pra qualquer leitor. Recentemente mergulhei nos seus textos sobre literatura, exílio e ditadura (o terceiro volume da Obra crítica, publicado no Brasil pela Editora Civilização Brasileira , reúne vários). “Negação do esquecimento” é uma conferência de 1981 que denuncia o desaparecimento de pessoas comandado pela ditadura argentina (1976-1983).

Penso que além do texto ser pertinente à nossa própria história, enquanto brasileiros, que também passamos por uma ditadura recente e fomos muito mais tímidos na investigação (pra não dizer punição) de seus crimes, o cerne da reivindicação da memória nesse pequeno fragmento nos diz muito sobre os nossos dias, sobre a apatia que tenta se instalar e afirmar que o “quadro estável” de cerca de mil mortos (até onde se sabe) vítimas de Covid por dia é o “novo normal”. O trecho completo é o que segue:

“Temos que manter num obstinado presente, com todo o seu sangue e a sua ignomínia, algo que estão querendo instalar no confortável país do esquecimento; temos que continuar considerando vivos aqueles que talvez já não o estejam, mas que temos a obrigação de reivindicar, um por um, até que a resposta mostre finalmente a verdade que hoje se pretende escamotear”.

*Carolina Peters é militante feminista e esse texto foi retirado do Instagram Sistema Literário mantido por ela.

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