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Uma outra estratégia é necessária

Por Guilherme Luiz Weiler*

A última pesquisa Datafolha mostra que, depois de ajudar a matar 100 mil pessoas, Bolsonaro vê crescer sua aprovação e diminuir a sua rejeição. E isso não significa, é óbvio, que 37% do eleitorado do país seja genocida ou mesmo fascista, como talvez apontem algumas generalizações rasas. Mas o fato é que Bolsonaro tem agradado mais as pessoas e conseguiu finalmente subir a aprovação, o que não acontecia desde o início da pandemia.

O que aconteceu, então?

Dizer que o presidente mudou o tom é correto, mas não é 100% honesto. Explico: é verdade que Bolsonaro tem moderado as falas e tido uma atenção especial às besteiras de sempre que saem da sua boca. Então, nesse sentido, ficou mais raro, ainda que não impossível, claro, assistirmos o presidente dando declarações que o comprometam sobretudo com sua base de apoio ou entre os que estão na faixa dos indecisos. O que acontece, na verdade, é que Bolsonaro entendeu que o melhor a fazer seria terceirizar o trabalho sujo. Então, além da massiva quantidade de desinformação que rola solta no submundo bolsonarista – do Zap, onde está a base mais indiferente, ao novo Parler, onde está a base mais alucinada – viu-se que ministros, figuras e parlamentares bolsonaristas começaram a elevar (ou manter alto) o tom contra as instituições e a ciência, enquanto o presidente focava na estratégia anterior, que é e sempre foi bater na oposição à esquerda. Em síntese: o bolsonarismo continua com o mesmo tom, mas o presidente começa a entender que quando assume o discurso radical, perde fôlego para fora da base fixa que tem (essa faixa dos 30%).

A capitalização política das conquistas de terceiros até aqui também é notável: o presidente começa a se autodeclarar pai de garantias fundamentais ao povo mais humilde, como o auxílio emergencial, que por ele teria sido de 200 reais e já acabado e só continua e vigora com um valor mais alto pelo esforço da oposição; e politiza o debate de obras como, para citar a maior, a transposição do rio São Francisco, que uma finalizada garante água a tanta gente que já esperava a conclusão há anos e que, sejamos honestos, não foi feita em dois anos, mas foi fruto sim de um trabalho enorme de governos passados.

Ao falar da pandemia, há ainda que se constar que à medida que a quarentena vai se afrouxando e se arrastando, Bolsonaro vai vencendo na estratégia de dizer que, com ou sem isolamento social, as mortes até aqui foram inevitáveis (o que, é óbvio, é absurdo). Sem lockdown ou algo que se aproximasse de isolamento severo, somado às graves denúncias de corrupção de governos municipais e estaduais, e somado ainda ao afrouxamento quase nacionalizado das medidas restritivas, Bolsonaro vai tirando o dele da reta ao dizer, sobretudo, que o STF não lhe permitiu agir na crise (o que, sabemos, não é honesto porque o Supremo decidiu que ele só não poderia afrouxar, mas poderia endurecer o combate). Então, cada morto a mais é uma vitória de Bolsonaro e uma derrota do povo brasileiro, por mais triste que essa frase possa soar.

Em resumo: Bolsonaro é burro, incompetente, criminoso e tem graves desvios de caráter, mas está cercado de estrategistas que tem feito sua aprovação furar a bolha e sua rejeição ser driblada, normalmente com desinformação.

Qual é a estratégia, então, que o campo democrático e popular deve adotar?

Honestamente, essa é a pergunta de um milhão de reais (numa maleta repleta com as novas notas de duzentos). Mas acredito de verdade que precisamos chegar com informações nas mesmas pessoas e na mesma medida que eles chegam com a tal da pós-verdade, que não passa de um nome bonitinho para a mentira criminosa daquele lado de lá. O que são, senão a tentativa de alcançar mais gente para além da bolha, os outdoors “espontâneos” de apoio ao presidente que “coincidentemente” lotaram as ruas do país com a cara do assassino e mensagem de apoio? Oras, se nas redes eles viram que há um teto, então por que não ocupar as ruas de toda e qualquer maneira – algo que a esquerda tem deixado, com razões corretas, de fazer?

Temos uma responsabilidade enorme neste momento, que é recuperar a narrativa verdadeira sobre a pandemia. Que foi o Congresso, através da oposição, que conseguiu um valor maior que 200 mangos por pessoa; que das grandes obras que tem sido concluídas no país, pouquíssimas ou nenhuma têm mérito deste governo; que foi o afrouxamento, e não o isolamento, que vitimou mais de 100 mil; que o governo federal não está isento da responsabilidade e que o STF só impediu Bolsonaro de matar mais; que remédio de malária e verme não tem comprovação, não é a cura e pode inclusive fazer mal; que o governo federal investiu apenas um terço do valor que deveria ter investido na saúde desse país; que a agenda Guedes-Centrão e esse papo de responsabilidade fiscal é corresponsável pelo colapso da saúde do país; e que a moderação no discurso não é mérito de Bolsonaro, mas sim uma pequena pausa para tentar realinhar e calibrar a força política do bolsonarismo para além da bolha fanática.

Como dialogar com as pessoas? A mudança da linguagem e da comunicação é um bom começo. Chamar as coisas pelo que elas são e explicar as coisas do jeito que elas precisam ser explicadas me parece um bom começo. O que é um bilionário e por que é tão fácil para eles crescerem suas fortunas durante a pandemia, sobretudo com Bolsonaro no poder? Por que o teto de gastos é um assunto tão caro a este governo? Por que privatizar empresas e taxar livros ao invés de taxar grandes fortunas? Fundamental: por que o governo não deixa a gente ficar em casa com direito a emprego e renda assegurados? Temos debatido isso, é verdade, mas muitas vezes não conseguimos falar com as pessoas pelo impeditivo da comunicação acessível.

O contra-ataque precisa ser extremamente estratégico e bem elaborado, porque a cada passo em falso que faça o bolsonarismo crescer, mais e mais vidas ainda vamos perder enquanto a pandemia for, ao invés de um prejuízo, um alento ao governo de Bolsonaro.

*Guilherme Luiz Weiler é ativista por políticas públicas progressistas e direitos humanos. Foi coordenador-geral do Diretório Acadêmico Nove de Março, da Udesc, e atualmente é pré-candidato do PSOL Joinville.

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