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Benjamin e Brecht

Por Carolina Peters*

Há alguns anos, o professor José Antonio Pasta sugeriu em palestra que os ensaios de Benjamin sobre Brecht são possivelmente a segunda mais significativa análise da obra brechtiana, logo após os diários de trabalho mantidos pelo próprio poeta e dramaturgo alemão – um vigoroso esforço reflexivo da própria produção. Sublinho esta última palavra porque evoca o escrito benjaminiano que, dentre o conjunto, mais me instiga: “O autor como produtor”. Exilado em Paris, no início dos anos 1930, o filósofo prepara uma conferência que possivelmente nunca foi proferida no Instituto para o Estudo do Fascismo, mas que de todo modo chegou a nós. Partindo da problemática da “autonomia dos poetas” (ou sua participação na vida pública), que provocou a crítica pelo menos desde a República de Platão e parecia mais urgente do que nunca, Benjamin pretende demonstrar «que a tendência de uma obra só pode ser politicamente correta se também for literariamente correta».

Está em jogo mais que a adesão à causa dos oprimidos: «a tendência política, por mais revolucionária que pareça, tem uma função contrarrevolucionária enquanto o escritor sentir a sua solidariedade com o proletariado unicamente no plano da sua ideologia, e não como produtor». Até porque «o aparelho de produção e publicação burguês é capaz de assimilar, e até propagar, quantidades surpreendentes de temas revolucionários, sem pôr seriamente em causa a sua própria existência e a da classe que o possui», o que Benjamin assinala com extrema perspicácia ao reconhecer a especificidade do trabalho intelectual na dinâmica capitalista: «mesmo a proletarização do intelectual raramente faz dele um proletário. Por quê? Porque a classe burguesa lhe concedeu, sob a forma da cultura, um meio de produção que […] o torna solidário com ela, e mais ainda a ela com ele». Assim, a primeira tarefa do escritor é “trair a sua classe”, mas nunca sozinho:«Um autor que não ensina nada aos escritores não ensina nada a ninguém» e nisso, certamente, Brecht fora exemplar.

Me ocorre a definição que Pasta buscou em um termo alemão: Einverständnis, que significa acordo, comprometimento. Tema indispensável à revolução, acusa o caráter infinitamente necessário de dizer SIM ao mundo. Ao mesmo tempo, a palavra serve também de índice da relação entre dois grandes intelectuais que não cediam sobre seus desejos, mas que experimentaram na amizade aquilo que a vida burguesa interdita – o desenvolvimento extremo de suas personalidades. Pasta aponta que Brecht chega a uma compreensão mais madura do teatro épico e de sua própria obra a partir dos diálogos com Benjamin, e eu fico aqui pensando na influência de Brecht (estilística, inclusive, pois ele reclamava com frequência da escrita cifrada de Benjamin) sobre os ensaios acerca de Baudelaire, redigidos quando os dois conviveram no exílio, na Dinamarca.

Falamos hoje, 14 de agosto, do falecimento de Bertolt Brecht, mas foi ele quem precisou escrever sobre o amigo que «levantou a mão contra si mesmo/ Antecipando assim o algoz/ …/ O futuro está em trevas, e as forças boas/ São fracas. Tudo isso você viu/ Ao destruir o corpo sofrido».

*Carolina Peters é militante feminista e esse texto foi retirado do Instagram Sistema Literário mantido por ela.

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