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O caráter classista da solidariedade

Por Guilherme Cabral*

Historicamente, os trabalhadores (em condição de assalariamento ou não) encontraram diversas formas de resistir frente às condições degradantes de exploração as quais estão sujeitos. Os efeitos dessas soluções encontradas cotidianamente têm inúmeros desdobramentos. Que variam desde a imediata ajuda a um acontecimento trágico ou situação adversa, como levantar lajes para uma habitação em terrenos ocupados ou organizar roupas e alimentos para doação para necessitados, chegando até organizações de maior complexidade e gerência.

Este último é o caso das entidades de auxílio mútuo e das caixas de assistência emergenciais que têm origem na inevitabilidade dos trabalhadores recorrerem aos seus pares para ajudar um companheiro de trabalho que passe por uma situação de urgência.

Essas organizações tinham como objetivo, a grosso modo, resguardar associados em condições adversas, garantindo, por exemplo, ajuda financeira para um trabalhador doente ou acidentado e impossibilitado de trabalhar, auxílio médico para o segurado e seus dependentes ou auxílio funerário para a família de trabalhadores falecidos.

A prática não era nova nos anos de 1920, quando fundamentou parte dos primeiros modelos previdenciários elaborados pelo Estado brasileiro, mas continua atual, sobretudo com o desmonte das responsabilidades públicas e as políticas de austeridade já anunciadas, mas colocadas em prática em larga escala no governo de Jair Bolsonaro.

Mais uma vez, são os trabalhadores que se organizam e buscam enfrentar as dificuldades impostas pela insegurança promovida pelo avanço das políticas liberais e as tentativas de dissolução da classe trabalhadora, propondo a negação da mesma e de seus sensos comunitários.

O cálculo feito por esse pensamento erra por muito quando deixa de considerar que é exatamente nas piores condições da qualidade de vida, que os trabalhadores se unem.

A pandemia do novo Coronavírus evidenciou os traços classistas dos movimentos que atuam na tentativa de minimizar as causas devastadoras características do vírus, mas também da ausência cabal das políticas governamentais em socorro das vidas humanas que já se encontram em situação de vulnerabilidade. Entram em cena organizações e iniciativas de um vasto contingente de trabalhadores que, identificados a partir da conhecida situação, agem buscando contemporizar as dores daqueles que fazem esse país, sacrificando-se pela sobrevivência.

Um exemplo de destaque se estende ao MST e ao Movimento de Pequenos Agricultores que organizaram verdadeiros mutirões contra a fome, alimentando milhares de brasileiros que sofrem com o desemprego, que atinge pelo menos 12,9 milhões de pessoas em dados recentes. Em Nova Iguaçu, cidade em que me criei, estudei e residi até o ano passado, coletivos e movimentos sociais como o MLB (Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas) e o Coletivo Solidariedade BXD, ambos organizados e tocados por trabalhadores, tiveram papel fundamental na alimentação de centenas de famílias, nessa região (Baixada Fluminense) que, segundo notícias recentes, concentra cerca de 17% das mortes em todo o estado do Rio de Janeiro.

Mas há quem ouse indagar aos trabalhadores quando as reações ante aos absurdos são duras. O movimento de paralisação organizado pelos trabalhadores por aplicativo levantou e orgulhou centenas de trabalhadores, que pelas ruas de diversas capitais brasileiras, encontraram seu potencial nunca perdido.

Tanto que no sábado (25/7) foi organizada uma segunda paralisação. O movimento desses trabalhadores teve de responder às críticas falaciosas levantadas por uma base conformada e incendiada (e talvez financiada) pelas propostas indecentes dos apps. Resistiu bravamente e segue fazendo a diferença.

Na segunda-feira (28/7), o coordenador do Sindicado dos Metroviários de São Paulo, Altino de Melo, foi questionado pelo âncora do Bom Dia SP, Rodrigo Bocardi, que fazendo coro ao Secretário de Transportes da cidade, Alexandre Baldy, perguntou se não era de bom tom fazer uma greve durante a pandemia, fazendo parte dos serviços essenciais.

Altino respondeu com sagacidade, indagando se era justo que no meio de uma pandemia os 42 bilionários do Brasil tivessem aumentado em 34 bilhões de reais, enquanto a categoria teria de ver seu salário diminuir em 10% (proposta levada aos trabalhadores pela empresa que administra parte das linhas do metrô de São Paulo, com o consentimento do governo Dória) para amainar a crise.

Bocardi encerrou a entrevista com Altino que convocou a massa da população a apoiar as necessidades dos trabalhadores do transporte e da saúde, tão essenciais no período. A expressão do âncora demonstra que não só a classe trabalhadora demonstra solidariedade interna.

É fundamental, portanto, compreender e evocar o caráter classista da solidariedade de classe que conforta os trabalhadores em momentos de reconhecida dificuldade, mas também em suas expedições contra a exploração contínua e cada vez mais complexa por parte das classes dominantes.

A tentativa de Baldy ou da base conformada pelos apps de culpar os trabalhadores por suas alternativas de luta são um elemento de pressão que deve encontrar no apoio das massas sua maior resistência. Claro que iniciativas de cunho assistencialista e de caridade aparecem, não sem o habitual oportunismo, levantando nomes de empresas e indivíduos famosos em painéis publicitários.

Mas, embora os impactos concretos na vida do trabalhador com essa onda de misericórdia sejam reais, somente a solidariedade de classe comporta a potencialidade da emancipação dos trabalhadores em conjunto contra a exploração sistemática.

*Guilherme Cabral é professor da rede básica privada de educação, mestre em História pela UFRRJ e membro do Coletivo Professora Nádia Felix.

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