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Notas sobre uma quarentena fria e cinzenta

Por Tati Lins*

São mais 100 mil mortes e 3 milhões de infectados pelo corona vírus no Brasil. As metas outrora absurdas das centenas de milhares mortes parecem cada vez mais próximas, quando não passavam de miragens em abril. Julho e agosto costumam ser meses tristes e frios. Vento seco durante o dia intercalados a neblina e o frio das madrugadas. É o gélido sorriso da morte, se aproximando como a febre do corpo subnutrido. 

Não há o que comemorar e os resquícios de esperança parecem cada vez mais conectados ao passado. Na prática, não há futuro. Se seguimos vivendo, é porque a resistência é um estado permanente. Os nossos corpos febris se rebelam contra o escuro do quarto frio, dos suores noturnos e dos calafrios. 

Temo e rogo a Deus pelos milhões de trabalhadores e trabalhadoras que se espremem nos transportes coletivos para poderem buscar o pão de cada dia. Ônibus, metrô e trem, outrora símbolos do ir e vir das cidades hoje são os verdadeiros bolsões ambulantes da COVID.

Não há possibilidade de vida sem a destruição total dos agentes da morte que ocupam por ora o poder de Estado. Mais cedo ou mais tarde seremos tomados por um outro tipo de febre: a da revolta. E não ficará febre sobre pedra. 

*Tati Lins é historiadora

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