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Benjamin para ler e comer

Por Carolina Peters*

Um dos primeiros escritos benjaminianos que temos documentado é um relato de sua viagem à Suíça francófona, no feriado de Pentecostes de 1906.

O adolescente (na época, Benjamin devia ter seus 14 anos) deixara ao lado de um amigo o colégio interno para explorar as montanhas a pé – se veio à sua cabeça o “Caminhante sobre o mar de névoa”, de Caspar David Friedrich, ícone do romantismo, não foi à toa, basta ler a produção poética e artigos de jornal que o jovem pensador escreveu pelos anos seguintes pra afirmar a filiação.

Mas o que acho mais curioso e interessante no relato é uma passagem em que Benjamin nos conta como 《a região que o trem atravessava não era bela, de modo que logo atacamos nossas provisões》.

Duas decadas separam o adolescente aventureiro, que entediado ataca os lanchinhos, e o pensador (já relativamente conhecido) que viaja à Rússia soviética e prova o Borscht.

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Um dos primeiros escritos benjaminianos que temos documentado é um relato de sua viagem à Suíça francófona, no feriado de Pentecostes de 1906. O adolescente (na época, Benjamin devia ter seus 14 anos) deixara ao lado de um amigo o colégio interno para explorar as montanhas a pé – se veio à sua cabeça o "Caminhante sobre o mar de névoa", de Caspar David Friedrich, ícone do romantismo, não foi à toa, basta ler a produção poética e artigos de jornal que o jovem pensador escreveu pelos anos seguintes pra afirmar a filiação. Mas o que acho mais curioso e interessante no relato é uma passagem em que Benjamin nos conta como 《a região que o trem atravessava não era bela, de modo que logo atacamos nossas provisões》. Duas decadas separam o adolescente aventureiro, que entediado ataca os lanchinhos, e o pensador (já relativamente conhecido) que viaja à Rússia soviética e prova o Borscht. A experiência de sorver a tradicional sopa de beterraba no rigoroso inverno moscovita não tem nada de tediosa, como evidência a passagem de seu IMAGENS DO PENSAMENTO (no Brasil, o livro tem tradução no vol. 2 das Obras Escolhidas da Brasiliense e também pela @autenticaeditora ). Este prato típico do leste europeu, aliás, da culinária popular, feito com a tuberosa rubra ralada, cozido junto a um pedaço de músculo bovino, servido usualmente com creme azedo e bem acompanhado por Vodka, tem uma história larga: sabiam que foi ela o estopim da revolta no Encouraçado #Potemkin? Sim, aquela que #Lênin apontou como o prenúncio da Revolução Russa. Imortalizada pela lente do cineasta Sergei #Eisenstein (a quem #Benjamin elogia profundamente em alguns ensaios), o levante se inicia quando os marinheiros se recusaram a comer o #borsch feito com carne podre. Confesso que não experimentei nada tão elevado na minha primeira tentativa de fazer essa receita de família, mas tá valendo. . . . #sistemaliterário #BdeBenjamin #WalterBenjamin

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A experiência de sorver a tradicional sopa de beterraba no rigoroso inverno moscovita não tem nada de tediosa, como evidência a passagem de seu IMAGENS DO PENSAMENTO (no Brasil, o livro tem tradução no vol. 2 das Obras Escolhidas da Brasiliense e também pela @autenticaeditora ).

Este prato típico do leste europeu, aliás, da culinária popular, feito com a tuberosa rubra ralada, cozido junto a um pedaço de músculo bovino, servido usualmente com creme azedo e bem acompanhado por Vodka, tem uma história larga: sabiam que foi ela o estopim da revolta no Encouraçado #Potemkin? Sim, aquela que #Lênin apontou como o prenúncio da Revolução Russa. Imortalizada pela lente do cineasta Sergei #Eisenstein (a quem #Benjamin elogia profundamente em alguns ensaios), o levante se inicia quando os marinheiros se recusaram a comer o #borsch feito com carne podre.

Confesso que não experimentei nada tão elevado na minha primeira tentativa de fazer essa receita de família, mas tá valendo.

*Carolina Peters é nossa colunista e mantém a página Sistema Literário no Instagram.

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