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A respeito dos atos e manifestações antirracistas que têm tomado o Brasil nas últimas semanas

Por Juliana Drumond*

A partir do Rio de Janeiro, pude perceber que o mote que tem ganhado força é a luta antirracista. Estaríamos vivendo um movimento pautado pelas manifestações do EUA? Talvez. Ainda que seja, não há como ignorar que o que aconteceu lá e é estarrecedor pensar que a polícia do Rio de Janeiro mata mais que isso e de modo igual ou pior no que diz respeito à perversidade, é de causar no mínimo incomodo. Os atos de domingo clamavam por vidas. Enquanto as discussões teóricas acerca do que é o fascismo e quais as suas nuances na experiência brasileira tomavam os grupos de whatsapp de esquerda, nas ruas o clamor pelo #forabolsonaro não era a pauta principal, mas era consenso.

A democracia não garantiu e ainda não garante a existência da juventude negra. Entretanto, a pandemia desnudou a necropolítica em curso de governos genocidas como Wilson Witzel e Jair Bolsonaro A ausência de políticas públicas que possibilitasse o isolamento com dignidade estava colocada. Mas o escárnio desses governos em não buscar medidas paliativas e urgentes para garantir a vida e saúde da população mais vulnerável provocou essa angústia e revolta que ajudou a aglutinar as pessoas na rua. Alguns já enterravam os seus por tiro, outros por fome, outros por doença. Mas viver isso tudo de uma vez e ainda ver as lideranças governamentais cagando na nossa cabeça, acirrou as coisas. O exemplo dos Estados Unidos acirrou as coisas. A morte matada do menino João Pedro acirrou as coisas. A morte matada do menino Miguel, acirrou as coisas. As famílias negras não têm um minuto de descanso na pandemia.

No domingo, as ruas estavam tomadas de polícia, mas polícia para muitos de nós é sinal de alerta. Então, o que vi nos atos foi uma galera que tava ligada. Não tinha espaço pra dar mole pra polícia. Não tinha espaço para dar mole e aglomerar. Pra quem no dia a dia sabe o que é não poder errar, o ato de domingo foi mais um processo seletivo daqueles que muitos dos que estavam ali já estão acostumados. Quem está participando e construindo esses atos tá ligado que não pode errar. A polícia tinha sangue nos olhos e armas nas mãos! A opinião pública também esperava um único erro. Uma situação que não é nova para a maioria que estava ali. Inclusive, os que vi ali não têm podido fazer 100% o isolamento, muitos tentando sobreviver e outros porque estão na linha de frente ajudando com que outros tantos sobrevivam. O tal do nós por nós. Acredito que há essa altura da pandemia todos vocês já conheçam.

E o que isso tem a ver com o derretimento do governo Bolsonaro? Os atos antirracistas têm se colocado como atos pela democracia e antifascistas, e de fato o são. São essas iniciativas que devemos fortalecer. A população periférica elegeu Jair Bolsonaro, e se quisermos que sua base de apoiadores se desloque à esquerda e não pare no centro, é com ela que temos que dialogar. As iniciativas institucionais e jurídicas cabíveis devem ser avaliadas por nós e encaradas como obrigação de dar apoio, construir e movimentar; são táticas. Estrategicamente precisamos estar junto às bases. Se existe base maior que a população negra, no caso do Rio de Janeiro, desconheço.

*Juliana Drumond é mãe, professora, historiadora, dirigente sindical. Militante do PSOL dialogando construções de uma alternativa à esquerda para São João de Meriti.

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