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Podemos chamar Bolsonaro de fascista?

Por Luan Ribeiro*

Lá nos idos de 2012, no campus do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ (o famoso IFCS), foram instaladas numerosas palmeiras no pátio do apertado prédio universitário. As palmeiras dificultavam a locomoção dos estudantes, e foram apelidadas – de maneira não-irônica – de “palmeiras fascistas”. Uma tragicomédia rocambolesca, numa UFRJ antes das cotas, com prioridades mal resolvidas de debates.

Há que se ter muito cuidado para definir algo como fascista. Tanto pelo respeito às vítimas dos governos declaradamente devedores desta ideologia, quanto pelo respeito acadêmico aos pesquisadores do tema: se apontamos contra os negacionistas da ciência, não podemos ser negacionistas com as ciências humanas e os estudos produzidos. Não, não quero aqui dizer que a academia é a única que pode fazer ciência e dizer o que é isso ou aquilo. Mas a gente aprende as coisas fazendo e lendo, na medida do possível de cada um.

Por aqui, o possível foi olhar bem atentamente para o que se desenha no avanço das novas direitas no globo. Por azar – e conjuntura, fake news, imperialismo e financeirização da economia – o Brasil foi um dos palcos para esta empreitada do mal. Bolsonaro é fascista!, diziam em 2018. Ora, só por que o cara quer matar todo mundo? Falta ainda pra ser fascista. O problema é que o presidente correu atrás para pegar o prêmio do apelido.

O fascismo é um movimento surgido na Itália, em 1919, com uma milícia anti-comunista chamada de Fascio di Combattimento, ou os camisas negras. Egressos da Primeira Guerra Mundial, quiseram evitar a ascensão da esquerda no país da bota, e assim o fizeram. O triunfo da vontade, da virilidade, do falo que pulsa. Chegam ao poder em 1922, com Benito Mussolini sendo convidado a ser primeiro-ministro do Reino italiano. Em 1933, Adolf Hitler é convidado para ser ministro da Alemanha, numa política com semelhanças à Itália. O fascismo, por mais anti-democrático que seja, tem a possibilidade de crescer dentro de uma democracia (e a recíproca não é verdadeira).

Mussolini, Hitler, e mais Franco, Salazar e uns tais pela Europa compunham governos com características semelhantes. Usando a hipótese de Robert O. Paxton, podemos definir os fascistas como dotados de uma ideologia anti-comunista e anti-liberal, reforçadora de uma discursiva decadência da comunidade nacional, que estaria sendo vilipendiada por um inimigo interno ou externo; somente uma violência redentora, sem limites legais ou éticos, envolta em cultos compensatórios de unidade (ideológica ou estética), poderia salvar o povo – comandado, é claro, por um líder carismático. Acho que podemos chegar, então, num denominador comum entre os finados regimes europeus e o nosso comedor de pão com leite condensado.

O governo Bolsonaro, assim como os governos fascistas, não tem programa. A grande questão é a manutenção autoritária da ordem. Por meio da violência ou negligência policial, aqueles que não se parecem fisicamente com o capitão, branco de olhos claros, são dizimados do mapa. A crise do coronavírus explode nas favelas e periferias – que têm cor – graças à falta de suporte do governo federal às classes trabalhadoras de baixa renda. Aqueles que ousam denunciar, devem primeiro se ver com o comando local, as milícias, defensoras da barbárie oficial, prontas para garantir o sistema, num cotidiano militarizado que deixa de ser sintoma social para ser condição para a sustentação do apoio ao governo.

Esta primeira lógica visa dizimar, invisibilizar, aqueles considerados menores, mais fracos. A lógica do inimigo interno, por outro lado, aqui é direcionada para a ciência, para a imprensa e, principalmente para a esquerda. É preciso a um governo desse tipo prometer escancaradamente vencê-los. Este inimigo, incontornavelmente, precisa ser imaginário e é necessário que se elabore uma narrativa que os fascistas tenham controle sobre ela; inclusive que estejam no controle para afirmar que uma mentira é somente uma narrativa alternativa. A verdade é a vontade, e a estética vira política.

Paxton também afirma que o fascismo trabalha em cooperação desconfortável, mas eficaz, com a burguesia. Parece-nos que não há tradução mais cristalina. A tendência e vontade empresarial, por trás do discurso do livre-mercado, é a formação de monopólios e oligopólios. Um governo autoritário pode garanti-las tanto carta branca na economia quanto o corporativismo necessário para ascendê-las ao mais alto status na nação. Se o Estado é o petit comité da burguesia, a política de privatizações de Bolsonaro não está distante da aproximação dos governos fascistas com as grandes empresas pró-regime. O mercado oscila, mas não quebra.

Não nos enganemos, entretanto: nada disso é pensado por Bolsonaro. Assim como Hitler também era, nosso líder da nação é um simplório. Um militar de baixa patente, um homem médio, com vocabulário limitado, em que os palavrões deixam de ser exclamações para tornarem-se base argumentativa. Os intelectuais ao seu redor limitam-se a elaborar estratégias de manutenção de poderio de um ou outro interesse particular, camuflado de vislumbre popular. São organizadores de inventários de táticas, ritos e gestos de autoritarismos e populismos passados, como num self-service histórico-político, que eles possam pôr em prática. Para o fascismo, não há passado, e o futuro é no improviso. O presente é uma colcha de retalhos de práticas soltas de um despotismo qualquer.

Não é por menos que, então, bandeiras neonazistas aparecem nas manifestações pró-Bolsonaro. É porque elas cabem ali. Elas podem ser costuradas no centro desta tapeçaria tupiniquim com cheiro de Alemanha. Não são por acaso, então, as cenas de asseclas do presidente bebendo leite, das caminhadas com tochas por Brasília, símbolos da supremacia branca. Não é por azar a cena do ex-secretário de cultura, Roberto Alvim, encenando em cadeia nacional uma cópia pitoresca de Joseph Goebbels (ministro da cultura nazista). Não é um espanto quando o presidente “acidentalmente” compartilha em redes sociais uma frase de Benito Mussolini. Como diria Brizola, se tem rabo de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, corpo de jacaré, como é que não é jacaré?

Diante disso, o anti-fascismo vem como uma expressão que designaria a resistência ao bolsonarismo. Ser anti-fascista significa lutar para derrubar tudo aquilo que dá sustentação ao fascismo: o autoritarismo, o ultranacionalismo, os preconceitos e, principalmente, o capitalismo. Munidos desta certeza, não tem erro: podemos cravar os elementos claros de fascismo no governo Bolsonaro, e chamá-lo assim, se acharmos por bem. Finalmente, parece que achamos um fascista para chamar de nosso, e agora é genuíno. Podemos, enfim, deixar as palmeiras do IFCS em paz, curtindo a tranquilidade de não saberem o que está acontecendo.

*Luan Ribeiro é professor de História e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio)

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Um Comentário

  1. Muito bom artigo, parabéns.
    Acrescentaria que o bolsonarismo é um movimento neofascista, e Jair Bolsonaro seu principal líder; contudo, este movimento tem sua existência para além do próprio Bolsonaro.
    O que ocorreu na Europa do entreguerras, em países como Itália, Alemaha, Portugal e Espanha, entendo como fascismo clássico; mas é uma discussão.
    De todo modo, o governo brasileiro está sendo ocupado por este movimento neofascista, que chegou ao poder principalmen pelos votos de setores das massas (que é uma característica do fascismo); todavia, ainda não temos um Estado fascista, como ocorreu no Fascismo clássico.
    Está sendo travada neste exato momento no Brasil, uma queda de braço entre o movimento bolsonarista e os vários setores da sociedade civil que não se identificam com sua ideologia. O resultado desta luta política e institucional (mas também pelas mentes e consciências dos brasileros), definirá a configuração ideológica do Estado brasileiro, se fascista ou não.

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