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As mulheres na pandemia

Por Juliana Drumond*

Na medida em que o isolamento social vai se mantendo e se tornando cada vez mais necessário, o índice de violência psicológica, física e sexual cresce de maneira assustadora. O isolamento/distanciamento social tem tido um impacto negativo na vida das mulheres sob diversas perspectivas. Pensar o impacto da pandemia tem um recorte de gênero, raça e classe quando nos deparamos com o acirramento das vulnerabilidades e nos acessos aos serviços básicos mais essenciais como saúde, alimentação e o próprio direito à vida.

Esse momento é apontado por alguns pesquisadores como a chance de uma reconfiguração na divisão das tarefas domésticas. Na prática, a quarentena se coloca com um aumento das sobrecargas física e mental das mulheres. Geralmente responsáveis pelas tarefas domésticas da casa e com o cuidado de seus familiares, as mulheres têm aumentado suas cargas de trabalho doméstico e o seu compromisso em manter a saúde dos demais. Muitas vezes na informalidade e moradoras da periferia, as mulheres chefes de família têm oscilado em se pôr em risco para trabalhar ou administrar a precariedade financeira para garantir o isolamento social.

Em um cenário em que a internet tem sido porta voz na comunicação entre as pessoas durante o isolamento, vimos milhares de invisíveis aparecem na contagem das pessoas que não conseguiram acessar os meios tecnológicos para reivindicar o benefício da Renda Básica Emergencial. Pensar a realidade das mulheres significa não esquecer que nas diversas situações que enfrentam boa parte delas o fazem sob o estigma da invisibilidade. Dentre os mais invisibilizados estão as mulheres negras, pobres, transexuais; as esquecidas pelas politicas que deveriam garantir a vida digna e os diretos básicos, os direitos humanos.

Domésticas continuam pondo suas vidas em riscos para garantir seus empregos; professoras continuam trabalhando em casa (home office) ao mesmo tempo que dão assistência aos seus familiares. Segundo o IPEA, são aproximadamente 70% do total de profissionais da saúde, maioria na linha de frente no combate ao corona vírus.  São ainda maioria entre os desempregados, no mercado informal e agora sofrem com a demora em acessar o benefício da Renda Básica Emergencial.

Mães, estão ensinando seus filhos em casa. Tentando não engravidar, sofrem com a dificuldade de acessar contraceptivos no sistema público de saúde durante a pandemia.

Em confinamento com seus companheiros, têm visto o número de mulheres assassinadas em casa por seus companheiros – ex ou atual – crescer de modo apavorante. O isolamento também tem servido para aumentar a exposição das mulheres às situações de violência doméstica. Em casa, com seus companheiros, elas se encontram longe dos mecanismos de proteção e das redes apoio com as quais podem contar no dia a dia. O confinamento, marcado pelo acirramento da vulnerabilidade, tem colocado a vida das mulheres em maior risco.

Antes da pandemia eram responsáveis por dar contra dos trabalhados remunerados e não remunerados. A estimativa é que isso triplique durante o isolamento, sofrendo de modo mais efetivo os impactos da pandemia na sociedade. Essa maioria é minoria quando pensamos na representatividade nos cargos de decisão e poder na política, o que reflete diretamente na ineficiência de políticas públicas para garantir a vida e a dignidade das mulheres.

Campanhas de solidariedade têm ganhado força nas redes sociais para que as mulheres saibam que não estão sozinhas e possam achar maneiras de pedir ajuda. É preciso, cada dia mais, potencializar medidas de proteção e prevenção à violência contra as mulheres. E em um cenário de isolamento social em que as mulheres estão expostas e vulneráveis, é preciso criar novas redes de proteção, novas estratégias de comunicação, novos códigos de proteção. Atitudes como essas podem evitar que o feminicídio aconteça. Entretanto é preciso que os governos assumam o combate à violência doméstica como um serviço essencial, como uma política pública. É preciso respostas rápidas dos serviços de proteção. É preciso que as mulheres tenham acesso ao apoio financeiro e que os profissionais que atuam no atendimento a essas mulheres sejam treinados para um atendimento empático e humanizado.

Essas medidas, embora paliativas, nesse momento precisavam funcionar de modo efetivo. Embora o que vemos colocado é a situação das mulheres na sociedade brasileira, a pandemia acirrou as diversas vulnerabilidades que as mulheres já vivenciavam diariamente em seus territórios. Problemas que podem e precisam ser corrigidos ou minimamente amenizados de forma urgente, mas que só poderão ser enfrentados com politicas públicas pensadas por e para as mulheres. Quando as mulheres conseguem viver com dignidade, toda a sociedade se beneficia.

*Juliana Drumond é mãe, professora, historiadora, dirigente sindical. Militante do PSOL dialogando construções de uma alternativa à esquerda para São João de Meriti.

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