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Perder um amigo, o Aldir

Por Ewerson Cláudio

Bastante óbvio falar da importância de um cara que compôs músicas como as que Aldir fez, mas esses “monstros sagrados” nos arrebatam e fazer o quê? Ficamos amigos íntimos e eles nem sabem. Gosto de ler e até de escrever (muito mais do que consigo fazer). Minha preferência é a prosa, a crônica, o conto, narrativas condensadas; com beleza, inteligência e humor, ou seja, Aldir era um dos meus autores preferidos.

Mas quero falar exclusivamente de um álbum seu e de Maurício Tapajós (que nos deixou em 1995 aos 51 anos de idade). Um disco independente, de 1984, acho que financiado pela Petrobrás, que comprei ainda na década de 1980. Era um tempo em que eu descia na Praça Mauá e ia caminhando rumo à Cinelândia num trajeto errático por algumas lojas de disco para pesquisar pérolas, gastando três horas ou mais nessa labuta. Ficava suado, as pontas dos dedos da mão imundas, mas geralmente recompensado. À noitinha, ou depois de alguma reunião tramando a revolução, no ônibus de volta para Mesquita, me deliciava com os encartes dos discos – talvez, a coisa mais espetacular num LP!. Inesquecível o dia em que, antes de conhecer a música, li a letra de “A nível de”…

Foi num desses dias que fui degustando as letras do álbum duplo “Aldir Blanc & Maurício Tapajós”. Um desfile de belas poesias, crônicas sensacionais e esculhambação da ditadura militar. Frases como “Sobe o dólar, cai andaime (…) / Nós somos incríveis, um time de Pelés / e fuc-fuc-fuc no bozó dos Zé Manés”; “O Brasil deixa estar como está, se organiza é capaz de piorar, se cobrir vira circo, se cercar é hospício”; “Pedi desculpa a um general que me deu na costela / o vice disse disse outra tolice e não lhe dei mais trela / Entre o sambódromo e o bicheiro, rei da passarela / Quero é sambar entre o torresmo e a moela”; “Odeio essa bondade que se omite / Enquanto imperar a maldade, muita bondade é bobagem (…) Enquanto o mal tiver razão e for normal a opressão, por lucidez hei de bancar a louca”.

É incrível o modus operandi da indústria cultural: mesmo na “MPB de qualidade”, com raras exceções, só aparece o que é tocado pela varinha de condão invisível do Mercado. Não é de gravadora? Não rola nas rádios! Não tem a ver com o artista, mas se a criação dele vai render lucro ou não para uma empresa. Não me lembro de nenhuma música desse disco tocar nem depois da meia-noite. Nas rodas de amigos (único lugar onde toco violão), quase sempre era uma surpresa quando eu tocava, mesmo faltando algumas notas, “Entre o torresmo e a moela” ou “Valquíria”. Pra fechar o disco, a minha preferida, a poética, melancólica, suburbana e maltrapilha “Valsa do Maracanã”.
Aldir, só dói quando eu rio.

VALSA DO MARACANÃ

Quando eu ficar assim
morrendo após o porre
Maracanã, meu rio,
ai corre e me socorre
Injeta em minhas veias
teu soro poluído
de pilha e folha morta,
de aborto criminoso
de caco de garrafa
de prego enferrujado
dos versos do poeta
pneu de bicicleta
Ai, rio do meu Rio,
Ai, lixo da cidade
de lâmpada queimada
de carretel de linha
chapinha premiada
e lata de sardinha
o castigo e o perdão
o modess e a camisinha
o castigo e o perdão
o modess e a camisinha
Ai, só dói quando eu rio,
Maracanã, meu rio
Maracanã, meu rio
Ai, só dói quando eu rio

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