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Receita brasileira para uma tragédia virológico-humanitária

Por Leandro Dias de Oliveira*

I – Seja um país de graves diferenças sociais e com saúde pública combalida

O Sistema Único de Saúde [SUS] é um grande e louvável conjunto de unidades hospitalares que levam esperança a pessoas que muitas vezes sobrevivem a duras penas. Todavia, num país que água potável, dotação de sistema de rede de esgoto, acesso à educação básica e mesmo moradia é quase um privilégio, há um imenso abismo entre a saúde pública sobrecarregada e a sofisticação dos grandes centros médicos das classes mais abastadas. O conjunto da obra é primordialmente um modelo hospitalocêntrico e individualizado de saúde, cujos equipamentos são insuficientes para enfrentar um problema de grandes proporções.

II – Menospreze a grave e histórica pandemia em curso

Por óbvio, demorou-se a perceber o tamanho do problema oriundo da expansão das fronteiras da COVID-19. Mesmos médicos experientes e epidemiologistas renomados não foram capaz de compreender os veios aéreos da dispersão como fruto da globalização, a capacidade de contaminação transfronteiriça e mesmo as dificuldades de enfrentamento da doença. Todavia, quando esta aportou no Brasil, já no mês de março, era patente não se tratar de uma “gripezinha”: a tragédia humanitária em curso tem raiz na ignorância, no anticientificismo e na arrogância dos donos do poder.

III – Estimule a ignorância promovendo a desinformação e duvide do papel da ciência

Pouco importa se a cloroquina não tenha ainda o pleno respaldo científico e seus benefícios sejam proporcionais aos efeitos colaterais: espalhe ao máximo que se trata de medicamento redentor dos males da COVID-19. Faça com que, à revelia da inaugurada linha de produção militarizada do medicamento, haja correria às drogarias em busca da salvação medicamentosa, tornando-a escassa para quem precisa. Tergiverse sobre o assunto, esconda os exames oficiais, diga que só atinge os mais idosos e aqueles com comorbidades e reforce que homens-atletas são tão poderosos que não serão atingidos. Tudo o que for dito por professores universitários é exagero e errado; estarão corretos apenas mentes incensadas como youtubers, pseudo-intelectuais e oportunistas de ocasião.

IV – Destrua a governabilidade, rompa o pacto federativo e desintegre qualquer possível ação coordenada entre governo federal, estadual e municipal

Arrume problemas com praticamente todos os governadores, prefeitos, ministros e demais autoridades que não acreditem nas suas elucubrações. Despreze o isolamento e fomente que cada um dos mais de 5.500 municípios do país haja por conta própria, determinando as ações, datas, mecanismos e seleções necessárias para a prática do distanciamento social. Culpe-os pelos problemas advindos do desemprego num país onde milhões já estavam sem qualquer perspectiva de trabalho. Destitua o ministro da saúde, o da justiça, o diretor geral da Polícia Federal, aumente o tom contra a imprensa escrita e televisiva, nacional e internacional. Encontre meios de hostilizar outras nações, preferencialmente aquela cuja parceria é fundamental tanto comercialmente quanto para o enfrentamento da pandemia.

V – Crie “espaços de contaminação” e formas improfícuas de distribuição de renda emergencial

Se a receita em todos os países é ficar ao máximo em casa, faça o inverso: crie uma forma de pagamento de ajuda num banco público que, em dias comuns, já costuma ser densamente povoado. Faça com que as filas de suas filiais e casas lotéricas se tornem espaços privilegiados de contágio, assombrando especialmente as cidades mais carentes. Estimule a abertura do comércio, de empresas, de igrejas, o direito de “ir e vir”, as manifestações micaretadas, o acúmulo de seguidores matutinos, os protestos, as festas, as reuniões e toda a sorte de formas socialização da doença. Ao invés de ações rápidas e certeiras para que se diminua o tempo de isolamento e se promova o achatamento da curva, confunda, atrapalhe e ignore a ascensão do número de casos e prolongue o sofrimento do país.

IV – Retire de si a culpa por tudo o que está ocorrendo

Sem criar hospitais de campanha abrangentes; incapaz de promover uma ação integrada entre os entes federativos para um efetivo isolamento e achatamento da curva; menosprezando as ações internacionais de combate ao coronavírus; ignorando e rompendo os protocolos e acordos internacionais para distribuição de vacinas e tratamentos quando descobertos; criando diatribes com outros países fundamentais no comércio internacional e colapsando o possível atendimento ao fornecimento de EPIs hospitalares, máscaras universais, respiradores e outros equipamentos; desprezando o número de contaminados e de óbitos, mesmo num oceano de subnotificações e com parcos investimentos em testagem; transformando cada dia na capital da república num hospício; estimulando a continuidade irresponsável de uma sociabilidade impossível no presente, reaja, quando confrontado à realidade criada, desdenhando do sofrimento de muitos milhares de brasileiros pela morte de entes queridos. E, como se fosse necessário reforçar, reaja como qualquer incompetente: diga que não tem culpa alguma sobre a tragédia em curso.

*Leandro Dias de Oliveira é professor do departamento de Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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