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Neofascismo e ultraliberalismo: armas ideológicas da extrema-direita

Por André Abreu*

O avanço da extrema-direita no século XXI tem sido marcado por uma aliança política entre as visões neoconservadoras (muitas com corte neofascista) e as ultraliberais. Esse fenômeno intriga analistas políticos os mais diversos, tendo em vista a aparente incompatibilidade entre as ideias nacional-estatistas do conservadorismo clássico e a agenda privatista e de caráter multinacional das chamadas visões neoclássicas (neoliberalismo e ultraliberalismo). O que tem provocado esse fenômeno? Decidimos dar um passo atrás e explicar primeiro a origem das correntes neoclássicas.

Até meados do século XIX, o liberalismo (clássico) dividia-se em duas grandes visões: uma inspirada em Tomas Hobbes (liberalismo político) e outra inspirada em Adam Smith e David Ricardo (liberalismo econômico). A diferença entre ambas residia no papel do Estado. Os hobbesianos enxergavam na sociedade uma tendência anárquica, julgavam-na incapaz de se autorregular (e isto incluía a economia). Os smithianos defendiam que a economia capitalista era capaz de se autorregular mediante as leis de mercado (das quais emergia a “mão invisível”), entretanto, defendiam que o Estado tinha um papel importante na segurança e na provisão de alguns serviços públicos. Esta última reconhecia a geração do valor a partir do processo de trabalho e expunha que os custos de produção influenciavam no preço das mercadorias. Os utilitaristas (J.S Mill e J. Bentham), contemporâneos dos clássicos, já tinham divergências com a teoria do valor-trabalho ricardiana. Entretanto, as divergências se radicalizaram apenas no fim do século XIX, com o surgimento do marginalismo, liderado por Carl Menger, León Walras e William Stanley Jevons (essa vertente inspirou, por exemplo, Mises).

Naquele momento, o surgimento do comunismo e do anarquismo (ideologias contestadoras do capitalismo) obrigou o liberalismo a se converter de teoria revolucionária (de contestação do absolutismo) à reacionária, marcada pela reação contra os movimentos de contestação ao sistema capitalista. Àquela altura, Marx já tinha participado da fundação da Primeira Internacional Socialista e publicado O Capital, transformando a teoria do valor-trabalho para demonstrar como o capitalismo havia surgido e de que forma seus mecanismos de funcionamento levavam à ampliação da desigualdade e as condições de opressão da classe trabalhadora. Os marginalistas resolveram, então, abandonar a teoria do valor-trabalho e substituí-la pela ideia do valor-utilitário, confundindo os conceitos de valor e preço, tirando o Trabalho da análise do valor e focando na explicação do sistema de preços. O objetivo dos marginalistas (pais do ultraliberalismo) era converter competências antes do Estado em frentes de atuação da iniciativa privada. Essa vertente ultraliberal ganharia força posteriormente com a financeirização do capitalismo e, mais especificamente, com a crise e desmonte das políticas do bem-estar social após o choque do petróleo de 1973.

O que a crise do petróleo e a financeirização têm a ver com a ascensão do neoliberalismo e do ultraliberalismo? A resposta está no entendimento da evolução do capitalismo, de suas crises e como o sistema busca resolvê-las. As empresas e o sistema capitalista precisam buscar a expansão, ou seja, sua reprodução ampliada. Quando os custos de uma empresa se elevam de forma a pressionar sua taxa de lucro, a margem que sobra para o reinvestimento e expansão tende a reduzir. Uma empresa que reduz sua capacidade de reinvestimento e expansão pode perder espaço no mercado para a sua concorrente se esta otimizar sua capacidade de reinvestimento para produzir mais produtos e de melhor qualidade. Esse fenômeno se espraia para o sistema, e a classe capitalista passa a contestar os direitos trabalhistas e as medidas de proteção, que fazem o custo do trabalho subir. Com a globalização, esse processo de desmonte das medidas de proteção social/trabalhista e redução da mão de obra se mundializa, gerando desemprego e a fuga da classe trabalhadora para atividades informais, o que ampliou a desigualdade socioeconômica.

A crise de 2008 agrava esse cenário, e os ajustes neoliberais desmontam direitos e medidas protetivas que ainda haviam sobrado. A crise que se segue resulta de um problema de excedente: onde alocar o excedente financeiro se o setor produtivo está estagnado? A resposta é a privatização dos fundos públicos.  O que ocorreu é que o sistema financeiro se recuperou relativamente rápido, mas as políticas neo/ultraliberais e o aumento da desigualdade impediram que o setor produtivo retomasse os patamares anteriores de crescimento, ficando estagnado. Sem distribuição de renda adequada, não há como alcançar os patamares de consumo necessários para a retomada da economia real (de base produtiva). A ideologia da classe rentista (ultraliberalismo) continua preponderante. O que o capital produtivo busca fazer então? Reduzir os custos de produção e circulação. É nesse ponto que convergem ultraconservadores e ultraliberais. Reduzir os custos com o trabalho já não basta, é preciso reduzir também os custos provocados pelas medidas de responsabilidade ambiental – que influencia os custos de produção e de circulação. Deparamo-nos com uma contradição no processo de reprodução do capitalismo: a mesma globalização, que possibilitou um novo estágio da financeirização do capital e a difusão do neo e ultraliberalismos, permitiu o surgimento de redes globais de ativismo social, difundido o ambientalismo e a chamada responsabilidade social. Isto explica os ataques da extrema-direita ao assim chamado “globalismo”, à ideia universal de direitos humanos e ao ambientalismo. 

A extrema-direita reemerge da necessidade histórica do capitalismo de se voltar contra os princípios cujo surgimento seu próprio sistema permitiu, não naturalmente, é claro, mas a partir das disputas historicamente travadas. Sua ascensão advém do desgaste das democracias representativas liberais, incapazes de impedir o cenário de convulsão social que se apresenta. As armas ideológicas da extrema-direita estão dadas: negacionismo científico e ambiental, fundamentalismo religioso, xenofobia e ultraliberalismo. A pergunta é: o campo da esquerda vai sair do conforto da defesa da democracia liberal  e construir saídas concretas por fora do sistema (como a socialização do poder político) ou vai agonizar ao lado sistema decadente?

*André Abreu é professor de Geografia e pesquisador da UFF

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