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E agora, Jair?

Por Miguel Pinho*

Ontem (23) saiu na grande imprensa que Moro pediria demissão caso o superintendente da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, fosse exonerado. Na madrugada de hoje, Valeixo foi exonerado e Moro convocou uma coletiva de imprensa para se pronunciar sobre o caso e havia expectativa grande de ser um anúncio de saída do governo. As expectativas se concretizaram e o então superministro, paladino do ativismo judiciário lavajatista, entregou os pontos.

Antes de tentar traçar alguns cenários, existem alguns pontos que gostaria de salientar da coletiva que acho que são importantes e podem causar um estremecimento na base bolsonarista. Primeiro é de sua saída é motivada por vontade de interferência política do presidente nos trabalhos de investigação da PF. Em diálogo com de Moro com o próprio presidente, ele diz ter alertado Jair de que isso era interferência e a resposta foi de que o desejado era interferência mesmo. Bolsonaro deseja transformar a PF em uma polícia política de seu governo. E a segunda foi da preocupação do presidente com algumas investigações e inquéritos que estão correndo, e que certamente envolvem sua família e aliados próximos.

Moro não foi demitido por Bolsonaro como Mandetta o foi, mas aceitar a exoneração de Valeixo seria de um apequenamento tão grande, que nosso paladino Sérgio não aceitou. Afinal, existe uma aura de homem público ilibado a zelar e compactuar com essa operação de Jair, poderia manchar essa imagem.
Então, o que muda com a saída de Moro?

Creio que um dos pilares sobre o qual o Bolsonaro dialoga com um eleitoral mais amplo que o seu público mais fiel é quando o antipetismo entra na pauta. E Moro era uma figura central dessa articulação. Tê-lo no governo, aparentemente, só trazia vantagens, como trazer para próximo de si um possível concorrente em 2022 e ter a possibilidade de deixa-lo cozinhando em banho-maria. Sua saída do super Ministério da Justiça, ajuda o governo a perder apoio de um setor significativo dessa base antipetista mais ampla e Moro se torna candidatíssimo para concorrer a presidência no próximo pleito. Alguns apoiadores do governo, como Silas Malafaia, protestou contra a saída de Moro em seu Twitter e existem ruídos entre a cúpula militar e a bancada da bala no congresso

Por que Bolsonaro faria essa movimentação?

Não me parece muito estratégico da parte do presidente comprar uma briga desse tamanho, correndo risco de cindir sua base no meio de uma grave crise sanitária e econômica. E fora que existe um desgaste acumulado da própria demissão de Henrique Mandetta, da saúde. Bolsonaro pareceu ter lido O príncipe de Maquiavel de cabeça pra baixo e acumula o máximo de inimigos contra si ao mesmo tempo. O avanço desses inquéritos preocupa o presidente, podem comprometer gravemente o governo e ele se movimenta para abafá-los a todo custo. O que precisa ser avaliado é se o desgaste da ruptura de Moro pode ser maior que o escândalo causado caso as investigações prossigam. Mas Bolsonaro pode conseguir o pior dos dois mundos, que é acumular o desgaste da saída de Moro e depois já enfraquecido ser golpeado de forma fatal por escândalos envolvendo sua família e apoiadores mais próximos. Às 17h Bolsonaro dará uma coletiva e fica a pergunta, e agora, Jair?

*Miguel Pinho é Geógrafo, professor e apresentador do Podcast Lamparina

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