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Juninho Pernambucano para presidente!

Por Gustavo Miranda e Vinícius Baião*

Esse título improvável parece presunçoso, mas pode expressar um sentimento. Um sentimento de quem vem nos últimos anos observando a derrocada da democracia e o consequente avanço da desinformação, das fakenews e da criminalização da política.

Neste período, muitas pessoas se mostraram piores do que imaginávamos, outras menos firmes do que deveriam. Felizmente tivemos o alento de contar com quem já contávamos, e que não vacilaram, e com aqueles aos quais nunca demos o devido valor e que se mostraram grandes.

Podemos dizer que as posições de Juninho pernambucano vêm manifestando já há algum tempo são uma grata surpresa. Pelo menos para os autores desse texto. Posicionamentos corajosos, firmes, coerentes e bem embasados. Ajuda muito o fato de Juninho ser profundamente observador e conhecedor das desigualdades que assolam, não só o nosso país, mas todo o mundo. Ter vivido por mais de uma década na Europa, onde tomou contato com gente dos mais diferentes cantos do planeta e saídos dos mais distintos estratos sociais, também ajuda. Pela firmeza de suas posições fica evidente que sua estadia no velho mundo não se limitou aos estádios e centros de treinamentos.

Dizem que estar fora do Brasil ajuda a refletir sobre nossos problemas. Ao retornar, foi crítico quando tinha que ser, inclusive denunciando o que considerava errado na mídia televisiva, incluindo aí a própria emissora em que trabalhava. Em muitas ocasiões, seus comentários iam muito além das análises esportivas para as quais fora contratado e se desdobravam a temáticas mais profundas como a sociedade em torno do futebol.

Em todo esse tempo, não teve medo de manifestar suas opiniões sobre os mais diversos assuntos que permeavam o debate nacional, sempre com um recorte de classe muito bem definido e com argumentos nem um pouco rasos. Esteve ao nosso lado contra as reformas neoliberais que arrancaram direitos dos trabalhadores, esteve contra as privatizações capitaneadas por Guedes, é crítico às atuações de Moro e Dallagnol na Lava Jato e defende sempre a recuperação dos mecanismos de atuação do Estado na economia.

Reagir enfaticamente em relação ao caso do morador de rua e dependente químico agredido foi mais uma bola dentro de Juninho. Ele fez o simples: compaixão com o próximo. E isso em uma semana de Páscoa, quando essa palavra é repetida à exaustão, quase sempre da boca para fora, por líderes religiosos canastrões que se amontoam nos corredores do congresso e das demais casas legislativas.

A imagem que construiu como atleta vencedor, no Brasil e na Europa, como comentarista justo e como figura pública de posicionamentos claros e firmes o coloca, sem dúvidas, com autoridade para assumir papel de destaque na política partidária.

Mas talvez o ambiente do legislativo, normalmente a porta de entrada de quem faz a opção pela política, não seja o campo mais propício a esse jogo. Por isso não nos parece ser impensável uma candidatura sua à presidência. Para essa reflexão considera-se um cenário provável que vamos enfrentar em 2022: os candidatos que se apresentarão com a imagem de antissistêmicos.

A esquerda não pode deixar o discurso antissistema ficar apenas com a direita. Bolsonaro faz uso dessa imagem a todo tempo, apesar das quase três décadas como deputado e de ser hoje o chefe do executivo nacional. Teremos ainda uma possível candidatura de Luciano Huck. Sem contar no ex-prefeito e hoje governador de São Paulo João Dória que continua se intitulando não como político mas como um empresário na política.

Apresentar um candidato identificado com o xadrez político tradicional, a despeito das suas qualidades, terá pouca capacidade de diálogo e de capilaridade junto a grande parte da sociedade neste momento em que vivemos uma criminalização da atividade política. Talvez para defendê-la seja preciso lançarmos mão de uma figura pública que entende e defende a necessidade de fortalecermos a politica, mas que não seja lido dessa forma pelo conjunto do eleitorado. Em suma: um outsider na forma, mas não, necessariamente, na essência, uma vez que a defesa de partidos políticos, movimentos sociais e demais instituições fundamentais à democracia sempre esteve em suas falas.

Pelo que constantemente demonstra, Juninho Pernambucano não é um personagem que se encontra a cada esquina. É um cara de esquerda, inteligente, com muita capacidade de interlocução com a classe trabalhadora devido a sua profissão de origem, sobretudo em relação aos homens (bastião bolsonarista), nordestino e extremamente popular. Cabe ainda ressaltar que é filho de um militar de baixa patente, aqueles que, segundo o próprio ex-jogador, “são sempre os humilhados”. Mais um ponto importante para podermos disputar uma setor social, hoje extremamente identificado com o bolsonarismo, através de alguém que conhece de perto (e tem autoridade para debater com esse público) as contradições e desigualdades presentes nas hierarquias militares.

O que está faltando para o Ibope colocá-lo na próxima pesquisa?

*Gustavo Miranda é professor e coordenador-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (SEPE) e Vinícius Baião é professor da rede pública e diretor teatral de São João de Meriti.

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