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A Covid-19 e a soberania nacional: nacionalismo ou multilateralismo?

Por Felipe Werminghoff*

O novo coronavírus aumentou a tensão entre os nacionalistas e os defensores do multilateralismo. A pandemia, iniciada na cidade de Wuhan, província de Hubei, centro da China, reacendeu os debates sobre os rumos da política internacional, que ganhou novos contornos em meio à proliferação global do vírus. A Covid-19 se alastrou pelo mundo todo com extrema rapidez e as associações com a globalização se tornaram inevitáveis. Nessa conjuntura, a partir da ótica das relações internacionais e da geopolítica, abordaremos a relação entre o Sars-Cov-2 e a posição adotada pelos os Estados no sistema-mundo interestatal.

O avanço da Covid-19 por variados continentes foi alvo de diferentes estratégias discursivas por partes dos Estados: os EUA construíram uma narrativa baseada no surgimento de mais um “vírus chinês”, em uma clara tentativa de estigmatização territorial xenófoba, a exemplo do que ocorreu em 1919 com a “Gripe Espanhola”.  A China, em resposta, adotou a contraestratégia de endurecer a postura contra a Casa Branca e rechaçar qualquer tipo de intencionalidade na proliferação da doença, além de auxiliar países da União Europeia, caso da Sérvia, com suporte financeiro e, paralelamente, ameaçar o Brasil através da possibilidade de rompimento de seus acordos comerciais bilaterais. Estamos diante de uma geopolítica crítica – para tomarmos de empréstimo a expressão de Gerard Toal, que não se restringe à arte da guerra ou às obras de infraestrutura. O que está ocorrendo na atual conjuntura é uma batalha discursiva entre a surperpotência global (EUA) e uma potência emergente (China). Ainda no âmbito das potências emergentes, a Rússia fornece ajuda humanitária ao governo Trump, aumenta seus investimentos em tecnologia da informação e busca ampliar seu soft power.

É justamente na ampliação do hard power e do soft power, ideia desenvolvida por Joseph Nye, que se dá a disputa pelos rumos da política internacional. Se por um lado o “poder brando” busca ampliar a influência cultural e ideológica de um Estado, o “poder duro” almeja o exercício da dominação econômica e política. O governo Trump, de base conservadora, usa a atual pandemia para propagandear hostilidades contra Pequim e defender um rígido controle das fronteiras. Esse movimento é uma tentativa de aumentar a imunidade dos EUA e de sua grande comunidade – para utilizar a brilhante reflexão do filósofo Paul B. Preciado sobre imunização e biopolítica -, de modo a reforçar as soberanias nacionais e, por conseguinte, selecionar os fluxos migratórios de forma que imigrantes e refugiados sejam excluídos da mobilidade impulsionada pela globalização.

Em contraposição aos nacionalismos de líderes como Trump e Orbán (com trajetórias políticas distintas), os defensores do multilateralismo defendem a reafirmação da cooperação internacional entre os Estados, nos mais variados âmbitos e instituições, a partir da premissa de que crises globais exigem respostas globais, dada a impossibilidade de um único Estado lidar com cenários de instabilidade mundial. No entanto, devemos questionar que multilateralidade está sendo proposta: a da subjetividade neoliberal, que aprofunda a relação centro-periferia e a cultura do “self”, ou a que propõe uma solidariedade global entre os povos. Mais do que uma simples retórica, necessitamos de uma cooperação que envie médicos para auxiliar no combate ao novo coronavírus, a exemplo de cuba, ao invés de uma superpotência que confisca máscaras, caso dos EUA. Os rumos da Nova Ordem Mundial permanecem em aberto e cabe aos ativistas alterglobalização participarem desse processo, o tornando mais justo e feliz.

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL.

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