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Precisamos ampliar o conceito de ciência

Por Camila Pizzolotto*

Ver gente de esquerda dizendo que a ciência foi responsável por grandes genocídios da História e comparando com religião é demais até pra mim. 

Sabemos o que a ideia de progresso desenfreado pode fazer, sabemos que a ciência iluminista nasceu de pressupostos muitas vezes racistas, classistas, misóginos. 

A ciência não é pura, ela sempre parte de algum lugar histórico, social. O cientista e sua comunidade são feitos de seres humanos que têm gênero, identidade, raça.

A ciência é feita exatamente de questionamentos, não de dogmas. a premissa da ciência é o questionamento de paradigmas anteriores e, a partir disso, algo é refutado ou reafirmado, onde saber de onde, como, quem fala é premissa de honestidade intelectual. 

Nina Rodrigues era bastante reacionário mesmo para seu tempo, por exemplo, mas é exatamente porque a ciência avançou e porque ela não é neutra que podemos questioná-lo com todas as ferramentas que temos hoje. Podemos afirmar com todas as letras que Nina Rodrigues estava errado. 

É uma pena ver a ciência reduzida ao projeto iluminista. É renegar, negligenciar, a contribuição dos movimentos decoloniais, a contribuição das mulheres, a inserção de premissas da medicina tradicional de tantos povos, a contribuição de povos que, mesmo fora do projeto iluminista de ciência, contribuíram e contribuem pra ciência o tempo todo.

Reduzir o que é ciência e também o que é religião foi o que nos fez chegar onde estamos, onde a razão (não aquela onde só o homem branco fala, mas aquela baseada em evidências, refutações, debates) é vista como a grande vilã. 

A ciência é uma eterna tentativa. Se não dá certo, tenta de novo, tenta melhor. Se está ruim, submete aos seus pares para que lhe ajudem. E assim caminhamos, ampliando a noção do que é ciência e ampliando cada vez mais a noção do que é ser cientista.

*Camila Pizzolotto é doutoranda em História pela UFF

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