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Bolsonaro, um chefe sem poder?

Por André Abreu*

A desistência da demissão do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta segunda-feira (6/4) parece indicar uma tendência que ganha força no governo federal. Diante do negacionismo de Bolsonaro em relação à gravidade da pandemia do coronavírus e da necessidade da adoção das medidas de isolamento social, e de seu consequente isolamento político, os demais integrantes do governo parecem querer entregar o poder ao ministro chefe da casa civil, o General Braga Neto – ao menos extraoficialmente. 

Bolsonaro pensa nas eleições de 2022 e não quer carregar o ônus da recessão econômica que se avizinha como consequência prática da pandemia da covid-19. De forma irresponsável, aposta todas as suas fichas na negação da ciência e da saúde pública, custe o que custar, e busca mobilizar a base social fidelizada em sua defesa. É razoável afirmar que Bolsonaro gostaria de reunir as condições necessárias para aplicar um autogolpe ao estilo do ditador peruano Fujimori. Entretanto, a falta de apoio das instituições formais (congresso nacional, tribunais superiores, governos estaduais, etc.), da grande mídia, de boa parte da cúpula militar (ainda com um discurso oficial legalista) e de uma parcela considerável da burguesia nacional fazem com que o presidente não disponha, atualmente, de capital político para tal realização. 

Os segmentos dirigentes da burguesia nacional sabem que se não responderem à altura o desafio que se apresenta, as consequências sociais, políticas e econômicas podem ser ainda piores no futuro. Um Estado que não protege sua sociedade das ameaças externas costuma ter sua legitimidade radicalmente questionada, e o custo político para as classes dirigentes poderia ser elevado e definitivo. Por outro lado, não parece ser viável, neste momento, a saída do impeachment. Embora legítimo (Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade), o caminho do impedimento não é garantido – não há maioria parlamentar para dar seguimento – e tampouco ocorreria em tempo hábil, já que o rito completo demora quase um ano. Por outro lado, Augusto Aras (PGR) não dá sinais que apontem no sentido da cassação do mandato presidencial. O que fazer com o Bolsonaro, então? Pode estar se formando um consenso entre governadores, congresso nacional e integrantes do Estado Maior – com anuência dos militares – de que a tática a ser seguida é o completo isolamento de Bolsonaro e a passagem do poder político para Braga Neto. Por ora, Bolsonaro parece ter tanto poder em seu próprio governo quanto a rainha da Inglaterra.

*André Abreu é pesquisador e mestrando de Geografia na UFF.

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