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A crise do capitalismo e o agravamento da pandemia do coronavírus: a consequência nefasta de um sistema baseado em desigualdades

Por Juliana Brandão*

Há quem diga que o capitalismo se reinventou depois do desastre econômico e social que seguiu a Grande Depressão de 1929. Naquele momento, lembrando por muitos pela quebra da bolsa de valores de NY e frenética venda de títulos e patrimônios por grande parte da população americana, o capitalismo e seu sistema de crédito  e expansão desenfreada de investimentos mostrou uma das suas principais falhas: a incapacidade de oferecer segurança e combater por dentro o desemprego, a pobreza e a fome.

Curiosamente, o que alguns apontam como uma reinvenção do sistema e recuperação posterior, teve como característica principal uma intervenção que aconteceu fora dele: acordos (novos acordos) e replanejamento econômico estatais. Somente depois que Roosevelt permitiu a entrega do que seria o respirador econômico da economia americana, foi possível estabelecer condições mínimas pra conter o inacreditável crescimento do desemprego (taxas de até 30%) e evitar que se alastrasse ainda mais o caos social subsequente com políticas públicas de amparo social.

A pobreza e a miséria da classe trabalhadora a nível mundial não foi gradualmente suavizada por dentro do capitalismo no pós-crise, e sim por fora e com solução que custaram um alto preço: caos social, miséria e mortes. Esse preço parece ser uma constante na história do capitalismo e sua reinvenção, bem como ser um elemento comum da sua globalização enquanto sistema. Diversos países experimentaram momentos de revolta e eclosão de movimentos totalitários na fragilidade deixada pela condição sócio-econômica da população, como Itália e Alemanha, e em nenhum dos casos as saídas democráticas ocorreram via mercado.

Crises como as de 29, que começaram no coração do sistema (inchaço do mercado financeiro), e continuaram depois da segunda guerra mundial com o Estado de Guerra e a reorganização mundial dos recursos e reconstrução que ajudou alguns continentes e excluiu e arrasou outros, demarcam uma situação que ocorre sempre que o sistema capitalista é asfixiado: as consequências humanas são violentas e as tomadas de decisão para evita-las não vêm de dentro do sistema. A lógica da exploração que perpetuou a ordem global do pós-guerra, alimentando guerras e delas extraindo comércios e levantando impérios, necessariamente leva a um limite e esse limite é a decisão de quem vive e quem morre em cada uma das crises do sistema capitalista.

Existem vários tipos de crise. Existe a crise que surge dentro do sistema, uma crise de dentro da abstração capitalista suprema, dos mercados financeiros e títulos, crise financeira, guiada e ordenada pela lógica do liberalismo predatório dos lucros e juros. E existe a crise que ocorre no âmbito da produção, onde a engrenagem do sistema é parada bruscamente, impedindo a produção e o consumo por impedir uma condição básica: a possibilidade de trabalhar.

As crises citadas se conectam no momento histórico em que vivemos, e podem ser agravadas em momentos de pandemia como a do COVID-19. Não necessariamente há uma ordem de desabamento das estruturas que formam os mercados financeiros e as fábricas e indústrias, mas existe uma ordem contemporânea que estabelece uma relação de intensidade e agravamento de uma crise humanitária: a lógica do lucro. É lucrativo proteger o trabalhador de uma pandemia? É lucrativo investir em ciência para testes, vacinas e saúde? É lucrativo agora? essas são as pergunas que permeiam o caminho da construção do capitalismo moderno.

Desde 2003, cientistas vêm alertando desde a SARS[Severe Acute Respiratory Syndrome] a possibilidade de uma pandemia mundial, porém nunca conseguiram evoluir as pesquisas e vacinas para prevenir o desastre anunciado por não haver investimento suficiente na indústria biomédica e na maioria dos governos para soluções que permitissem intervenção em massa: equipamentos de baixo custo como respiradores acessíveis, produção em larga escala de testes e vacinas, junção dos sistemas público e privado de saúde, etc. 

Em janeiro deste ano a China não conseguiu contato com a inteligência americana sobre a disseminação do coronavírus e o sequenciamento do genoma do vírus, pois para Trump não configurava prioridade. No Brasil, no ano em que a pandemia já se era uma realidade concreta, o presidente Jair Bolsonaro se recusou até mesmo a ler os relatórios do ministério da saúde alertando sobre uma possível pandemia por doença respiratória. Assim como em muitos países marcados pela ideologia neoliberal, a preocupação com a vida do trabalhador não é a prioridade.

Além da falta clara de investimento governamental para prevenção, que deflagra a prioridade capitalista, é importante notar que a questão de equipamentos médicos e sistema de saúde também esbarra em outro problema do capitalismo: a necessidade de concorrência. A lógica da mão invisível do mercado acompanha o processo de mudança e continuidade do sistema capitalista até hoje, e sua consequência, pra além de uma insuficiência em manter e responder a uma construção social que visa o bem comum, mostra sua face mais nefasta agora com os recentes episódios sobre as cargas retidas de respiradores no aeroporto de Miami.

O contrato de 42 milhões assinado pelo governo da Bahia não foi o suficiente no jogo global por concorrência e sobrevivência, que levou os EUA a reter 600 respiradores que vinham em direção ao Brasil para ajudar com os casos de coronavírus. Os respiradores representam hoje a salvação de muitos, e o lucro astronômico de outros, assim como diversos equipamentos de saúde que irão redefinir quem vai manter o poder na geopolítica mundial do mundo pós-pandemia.

O Brasil não é um fornecedor mundial de respiradores, assim como de diversos equipamentos de saúde, o que o coloca em séria posição de vulnerabilidade em momentos como este. Agora, mais do que nunca, o capitalismo se coloca como um cruel carrasco de países e continentes que não entraram (ou entraram tarde) na corrida pela soberania e poder industrial, tornando a globalização pela regra neoliberal a pior de todas as situações, pois apesar da cartilha neoliberal, não há garantia de que os parceiros ideológicos como os EUA sejam parceiros comerciais em tempos de escassez em equipamentos de saúde.

A China, por sua vez, desde o começo da crise do coronavírus não se demonstrou avessa a permitir déficit e emitir títulos especiais que garantam sua recuperação econômica. Ao contrário do que diria a lógica ultraliberal atraente ao governo brasileiro, o governo chinês desde o começo da crise demonstrou disposição em medidas de garantia de controle e monitoramento de novos casos , suspensão de atividades e controle de portos e aeroportos no país.

Os dois grupos criados pelo governo chinês juntamente com a OMS (Relatório da Missão Conjunta OMS-China sobre Doença de Coronavírus 2019 (COVID-19)), fizeram parte de uma resposta nacional de emergência  que permitiram uma contenção eficiente desde o primeiro epicentro da crise na cidade de Wuhan até outras cidades distantes do país. A ação coordenada do governo chinês em termos de gastos e senso de urgência com a OMS, enxergando a crise como global foi e é um mecanismo de combate eficiente a crise do coronavírus. Cada país e continente será afetado de uma forma diferente pela pandemia, mas a história do capitalismo e as medidas de contenção que a lógica liberal apresentaram até hoje não demonstram soluções que permitam saídas sem altos preços humanos.

Não acredito que seja o papel qualquer cientista social apontar um país ou governo como exemplo a se seguir em momentos como este, mas sem dúvida é o papel de todos nós, como cidadãos e testemunhas oculares da história repensar as soluções dadas por um sistema que demonstra estar próximo de seu fim. A globalização e interdependência de sistemas de saúde de países com grandes disparidades sociais, crises sanitárias e crises de produção e trabalho trouxeram novas problemáticas pra nossa visão de futuro e sobrevivência e é necessário procurar respostas para além do capitalismo.

*Juliana Brandão é economista pela Universidade Federal do Pará, e colabora como pesquisadora no Laboratório de Equidade Social com estudos em macroeconomia da América Latina e métodos computacionais aplicados a dados públicos.

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