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A Covid-19 e a corporificação dos direitos no território

Por Felipe Werminghoff*

A pandemia do novo coronavírus, iniciada na cidade de Wuhan (província de Hubei, no centro da China), um hub logístico e uma das maiores metrópoles chinesas, nos  indica uma geografia da Covid-19, associada à mundialização do capital. Propomos, inspirados nas reflexões de Ivaldo Lima, meu professor de geografia política e orientador, e de nosso texto anterior publicado nesse portal, analisarmos esse cenário pandêmico a partir de um prisma geopolítico.

A palavra geopolítica, utilizada como um jargão pelo senso comum, tem sua origem em Leibniz, no século XVII, primeiro com o emprego do termo cosmopolítica – basicamente um estudo do que hoje denominados de geografia humana e de uma história global – e depois com sua alteração para geopolítica. A expressão, contudo, se populariza no século XIX, através do sueco Rudolf Kjéllen, mas associado às ações dos Estados. Sem nos aprofundarmos nas teorias geopolíticas ao longo do tempo, concebemos a geopolítica como prática estratégica do poder no espaço.

Rechaçamos, entretanto, a ideia de uma geopolítica que se esgote nos Estados maiores. Em primeiro lugar, nos balizamos em uma geopolítica multiescalar e transescalar, que vá além da escala nacional; em segundo lugar, pensamos, também, a geopolítica praticada através dos discursos e representações hegemônicas, dos ativistas anti e alter globalização e dos movimentos sociais. Essa geopolítica crítica é denominada de antigeopolítica, e seu foco está na dimensão da ética e dos sujeitos. Defendemos, apoiados em nosso olhar antigeopolítico, que a problemática do outro se expressa por meio de sujeitos corporificados e territorializados de direito

Reivindicamos, ancorados nas contribuições de Ana Clara Torres Ribeiro, o corpo-sujeito, não apenas o corpo-objeto. Os corpos, alvos de políticas de Estado como a biopolítica (controle dos corpos) e a necropolítica (política do deixar morrer), tem suas experiências vivienciadas a partir de posições interseccionadas de classe, gênero e raça. Acrescentamos, também, a materialidade do território – pensado aqui a partir de Jean Gottman – como abrigo e como recurso. Em outras palavras, a sensibilidade de cada sujeito em relação ao novo coronavírus é distinta. Um trabalhador informal, a exemplo de um ambulante, tem uma experimentação diferente da pandemia se comparado aos trabalhadores (também com seu nível de precarização) que se valem do home office. Da mesma forma, uma mulher, mais exposta ao trabalho doméstico e a dupla jornada, é mais vulnerável a contrair a Covid-19 do que um homem. Se essa mulher for negra e da periferia, se coloca em uma posição ainda mais vulnerável. 

Devemos, portanto, cuidar e praticar a solidariedade com o outro sobre a ótica da universalização dos direitos. Ainda assim, é necessário olhar de forma mais empática e responsável para  o corpo-sujeito proletário, do gênero feminino, negro e periférico. Urge reivindicarmos políticas públicas, calcadas em um Estado forte, para as frações da classe trabalhadora mais marginalizadas e moradora das favelas e bairros pobres de nossas cidades, bem como direcionadas aos camponeses. A pandemia do novo coronavírus nos coloca, mais uma vez, a necessidade de um horizonte ético baseado em territórios justos e em uma sociedade decente. 

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL.

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