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“Feminazi, mãe ou fada sensata”: no ambiente escolar, toda mulher foi ou será cancelada

Por Live França*

Dizer que vivemos em uma sociedade machista parece estar se tornando “clichê” em alguns ambientes. Em meio ao universo das redes sociais, que nomeiam “fadas sensatas” no mesmo instante em que “cancelam” as mesmas, está a vida real. E nestas vidas reais, as coisas não são tão simples assim. 

A escola mostra-se como um excelente (e complexo) reflexo e extensão da realidade social, permeada por questões igualmente reais, que, hoje, são atravessadas e intensificadas pelas redes sociais. O Censo Escolar de 2018 demonstrou que as mulheres são 80% dos docentes da Educação Básica. Nos bancos escolares, sobretudo no Ensino Médio, alunas também são maioria. Ainda que sejam maioria no ambiente escolar e que levantem há tempos questões de gênero, que hoje ganham espaço nas redes, por que essas mulheres ainda não são consideradas “fadas sensatas” ao defenderem ou, simplesmente, discutirem igualdade/equidade de gênero dentro da escola? Por que alunas e professoras, sobretudo da rede pública de ensino, ainda são silenciadas?

Em se tratando de educação, novamente e, sobretudo, educação pública, a prática do cancelamento não parece ser nenhuma novidade. As salas de aula reproduzem o melhor e o pior da vida cotidiana e, neste sentido, é impossível não se deparar, dentre outras, com questões de gênero que gritam por respostas. Parece haver um desconforto imenso quando alguma menina resolve denunciar qualquer opressão/risco que sofra por ser mulher. O desconforto é perceptível mesmo quando esta aluna tenta dizer qualquer outra coisa e é interrompida por “piadas”, comentários constrangedores e, por vezes, violentos, dos colegas. Um quadro que, possivelmente, poderá ser agravado em se tratando de uma aluna negra. Em muitos momentos, meninas parecem ser bem aceitas para fazer os trabalhos mais “caprichosos” da turma, carregando, diversas vezes, nomes de colegas ausentes. São, muitas vezes, representantes de turma, organizam eventos na escola, são membros do Grêmio estudantil, mas, ainda assim, não são, realmente, ouvidas. Devem corresponder a um modelo de aluna perfeita e, obviamente, inalcançável a todo o tempo. São incentivadas, mesmo que inconscientemente, a se afastarem de sua infância e adolescência. “Meninas brilhantes” não podem “cometer erros”. E esses “erros” vão desde reclamar, falar alto, dançar funk, “ter a boca suja”, namorar, até o pior de todos eles: engravidar. Nada parece bastar, seja para as meninas “ditas perfeitas” ou para aquelas que, sequer, tiveram as habilidades ou capacidade intelectuais consideradas. Meninas que são taxadas de burras, brigonas ou escandalosas. Meninas que são, muitas vezes, hipersexualizadas por homens: pais, professores e diretores, inclusive. Aquelas que “ninguém tem dúvida: não têm futuro. Vão engravidar”. Em algum momento da vida escolar, mais cedo ou mais tarde, todas serão canceladas.

Se a escola é um reflexo da vida cotidiana, qual seria o seu papel na luta contra o machismo? Sou professora desde 2008. Atuo na rede estadual do Rio de Janeiro, em escolas da Baixada Fluminense desde 2012. Neste período, posso dizer que avançamos um bocado. Em contrapartida, me arrisco a dizer, também, que políticas veladas de silenciamento avançam ainda mais velozes. Não é fácil ser professor da educação básica em um contexto sócio-político de desvalorização da educação e, consequentemente, do profissional que atua nesta área. Ser professora é ainda mais delicado, acredito. Da Educação Infantil ao Ensino Médio, não é preciso ir muito longe para perceber quem são as profissionais mais sobrecarregadas dentro e fora dos muros escolares. Tal como acontece com as alunas, nós também temos modelos inalcançáveis a seguir. As professoras do Fundamental I, carinhosamente, mas nem sempre, chamadas de tias devem corresponder ao ideal da “mãe perfeita”, aquela que faz tudo por amor, que cuida. Quase sempre, todos os dias na escola, são engolidas por trabalhos manuais obrigatórios, burocracia e salários baixíssimos. Menores, inclusive, do que os do Fundamental II. “Mas, tudo bem, é uma profissão tão linda, não é mesmo?” Tão importante, dizem, mas que poucos homens exercem. Por que será?

Quanto às professoras do Fundamental II/Ensino Médio, grupo ao qual eu faço parte, a questão é outra, mas a raiz é a mesma. Parece haver um consenso velado de que nem deveríamos estar ali, mesmo que sejamos, hoje, maioria nos cursos de Graduação também. Se você for mulher e negra, aí é que não se espera mesmo que você esteja por lá. “Que audácia!” Muitas são as tentativas de nos parar. “Fiquem por aqui, ok, desde que permaneçam caladas!” Neste contexto, tanto faz se você se declara feminista ou não, o machismo te enxerga do mesmo jeito: “você é mulher. Suporte calada!” O que pode mudar, para pior, é que algumas devem “se esforçar mais” do que outras, mas isso é assunto para outro texto.

É importante trabalhar gênero na escola por elas, por nós, mas por eles também, é claro. É uma questão de sobrevivência, muitas vezes. Mulheres fazem parte da sociedade, oras! Deveria ser natural que tantas contribuições dadas por elas não fossem ignoradas no currículo escolar, por exemplo.

É importante ressaltar que, nem sempre, é possível nos impor como gostaríamos. Nem sempre temos escolha e ter a consciência disso, embora bastante necessário, é extremamente violento também. Você sabe o que está acontecendo, você sabe que está sobrecarregada. Muitas vezes, você sabe o que é assédio, reconhece quando acontece. Você sabe que não está louca. Você sabe. Mas ainda que você saiba: você não se sente segura. E sozinha: você não está mesmo. Neste sentido, é inevitável identificar-se com muitas alunas que permanecem caladas em sala e extremamente difícil recusar qualquer trabalho que fortaleça as suas vozes. E lá está você vestindo a armadura novamente, mesmo sabendo o que isso significa. A armadura imaginária não te livra da solidão e, consequentemente, da sobrecarga, mas pode ajudá-la a lembrar que, diversas vezes, você se reconstrói por e com elas. Podem nos chamar de doutrinadoras mesmo, tanto faz. Enquanto professorxs, é na sala de aula que precisamos começar a ouvi-las. Para que não se sintam sós, para que tenham segurança, ao menos, no ambiente escolar. Para que se apoiem ao lidar com questões da vida pessoal/social dentro e fora dos muros da escola. Para que sobrevivam. No final das contas, todas nós seremos canceladas mesmo. Que estejamos juntas todas as vezes que isso acontecer até que, um dia, deixemos de ser!

*Live França é professora da Educação Básica, mestre em História Social pela UFRJ, foi Supervisora PIBID-História 2018/2020 (IM-UFRRJ) e faz parte do Coletivo Professora Nádia Felix.

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