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Mulheres, vivências e mercado de trabalho

Por Elisabete Vasconcellos*

Já ouvi de colegas de trabalho a seguinte frase: “É mais fácil dizer que o carro quebrou, do que falar que o filho está doente”. Essa simples afirmativa reflete uma das inúmeras dificuldades que as mulheres enfrentam no cotidiano do mercado de trabalho. Segundo pesquisa divulgada pela recrutadora Catho, em 2019, 48% das mulheres já tiveram problemas no trabalho ao terem que se ausentar quando um filho passou mal. Além disso, 30% das mulheres tiveram que deixar o trabalho por causa dos filhos, enquanto apenas 7% dos homens precisou fazer o mesmo. Esses dados refletem a lógica patriarcal presente nas relações familiares, onde as mulheres ainda são consideradas principais responsáveis pelos cuidados com os filho e com a casa.

Além do preconceito, as mães também sofrem com a recolocação pós gravidez e com os baixos salários. O que acaba por empurrá-las para o empreendedorismo, ou seja, para o mercado informal de trabalho. Com condições financeiras limitadas e uma carga extenuante de trabalho, essas mulheres – principalmente as mais pobres- têm de recorrer às creches ou as redes familiares de apoio, geralmente outras mulheres, para deixarem seus filhos.

As dificuldades para conciliar maternidade e carreira profissional são ainda mais acentuadas quando se trata de mães solo. Segundo dados do IBGE, de 2005 a 2015 o contingente desse grupo cresceu de 10, 5 milhões para 11,6 milhões. Já o Instituto Data Popular aponta que das 67 milhões de mães brasileiras, 31% são solteiras e 46% trabalham. Tendo em média 47 anos de idade, 55% pertencem à classe média, 25% à classe alta e 20% são de classe baixa. Isso faz com que elas escolham ocupações com horários mais flexíveis ou mesmo recorram ao mercado informal de trabalho. Portanto, a realidade daquelas que optam por empreender para conciliar criação dos filhos e carreira, ainda é uma pequena parcela privilegiada da sociedade.

Nesse contexto de carreira, maternidade, vida pessoal, além de outras demandas, expressões como “autocuidado, autoamor, mulheres que cuidam de mulheres” indicam um movimento que vem ganhando cada vez mais adeptas nas redes sociais e na vida real. As práticas que significam parar em determinado momento do dia ou da semana para cuidar de si ou fazer alguma atividade prazerosa, como cuidados com o corpo ou mesmo a prática de uma atividade física, estão na moda. Enquanto os homens sempre puderam tirar um dia para jogar o seu futebol, ou mesmo sair para se divertir com os amigos, às mulheres restava a dupla ou mesmo tripla jornada de trabalho- carreira, casa e filhos-, sem direito a folga ou a qualquer recompensa. Tratando-se de mulheres negras, essa jornada era ainda mais pesada, pois historicamente sempre foram associadas à imagem de mulheres fortes, que não precisam de ajudam e que davam conta de tudo sozinhas.

Iniciativas, como, por exemplo, as oficinas de dança do afrofunkrio que oferece um preço diferenciado para as mulheres negras, ou projetos como o “Avança Nega”, que fornece ajuda para aquelas que precisam que algum suporte emocional, contando com uma agenda de reuniões e palestras, geram ambientes propícios para a promoção de saúde e bem estar. Portanto, além de promover uma melhora na autoestima, essas iniciativas criam espaços de diálogo e troca de experiências.

O que por vezes permite que elas identifiquem problemas que enfrentam no cotidiano, como os relacionamentos abusivos. Há alguns anos atrás tínhamos a ideia de que somente mulheres adultas, casadas ou mesmo em longos relacionamentos sofriam com esse tipo de relação. Atualmente, o número de mulheres cada vez mais jovens que relatam já terem sofrido algum tipo abuso, seja físico ou psicológico, é crescente.

Os sinais são sutis e muitas vezes começam como “preocupações” dos parceiros- mas que podem ser também de pais, filhos e/ou irmãos. Elas, geralmente, se iniciam com um controle sobre os passos das parceiras, seja nas redes sociais, seja nas atividades que ela pratica ou mesmo nos grupos que frequenta, com o discurso de que “é para o seu bem”, elas vão perdendo a autonomia sobre suas próprias escolhas.

Com o auxílio psicológico necessário e com apoio – não o julgamento- daqueles que lhe cercam, essa mulher consegue romper com o círculo de abusos. Quando ela se dá conta que é capaz de seguir sozinha com a própria vida, de que não é necessário estar ao lado de um parceiro para se sentir plenamente realizada e socialmente aceita, esses laços se rompem.

Porém, é nesse momento que o abuso, até então psicológico, pode se tornar físico, quando o homem recebe da companheira a notícia que ela quer acabar com relacionamento. Mas esse não deve ser um fator determinante para mantê-la num relacionamento destrutivo. Se necessário, essas mulheres devem recorrer a ajuda policial, como a DEAMs (Delegacia de Atendimento à Mulher) ou jurídica, para se manterem seguras e longe desses abusadores.

Além de inciativas da sociedade civil como o Mapa de Acolhimento, uma plataforma que conecta mulheres que sofreram ou sofrem algum tipo de abuso, com terapeutas e advogados. No campo político, foi aprovada em 2019 pela Câmara de Seguridade Social e Família, da Câmara dos Deputados, um projeto que prevê o pagamento benefícios para aquelas mulheres que sofreram violência doméstica, mas não conseguem se separar porque dependem economicamente dos parceiros. O projeto ainda está em tramitação e se encontra na Comissão de Finanças e Tributação.

*Elisabete Vasconcellos é professora da Educação Básica, mestre em História Social pela UNIRIO e faz parte do Coletivo Professora Nádia Felix.

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