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Coronavírus, globalização e ética: breves apontamentos

Por Felipe Werminghoff*

A Covid-19, doença causada pela transmissão do novo coronavírus (Sars-Cov-2), foi declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 11/03/2020. Isso significa uma disseminação mundial da nova doença, ou seja, uma epidemia que se espalhou por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa.

O novo coronavírus é oriundo da província de Wuhan, localizada no centro da China. O país de origem dessa pandemia, detentor segunda maior economia do mundo e maior parceiro econômico dos EUA (a primeira), nos mostra como a globalização – ou mundialização, para nos atermos à esfera econômica – auxilia no aumento da transmissibilidade do Sars-Cov-2. O mundo globalizado é caracterizado, sobre o prisma da integração, por um aumento dos fluxos de pessoas, mercadorias, capitais e serviços. As redes técnicas de um espaço cada vez mais comprimido pelo tempo – para os que podem usufruir do avanço dos meios de transporte, comunicação e informação – explicam porque vários países têm optado pelo fechamento de suas fronteiras, em uma tentativa de atenuar os impactos da transmissão desse vírus.

Essa mesma mundialização nos apresenta um cenário de grande incerteza econômica. A recessão se aprofunda, as ações das bolsas de valores despencam, a Bovespa acumula um circuit braker atrás do outro e o preço do barril do petróleo sofre uma forte depreciação, ampliada pela guerra comercial entre Rússia e Arábia Saudita. O cenário atual, no entanto, apresenta duas grandes diferenças em relação ao subprime de 2008, provocado pela crise imobiliária dos EUA: os governos, nesse momento, apresentam menor capacidade de adotar medidas anticíclicas, já que as taxas de juros já se encontram em um patamar reduzido; além disso, por se tratar de uma pandemia, a quarentena adotada em diversos países pelo mundo acarreta em uma queda abrupta na demanda e no consumo da população. Esse isolamento social, destacamos, tem forte componente de classe: o trabalhador precarizado, o pequeno comerciante e o autônomo nem sempre tem a opção do home office e, por isso, muitos precisam ir às ruas para garantir uma renda mínima. A mesma classe trabalhadora que não pode se isolar vive em favelas e habitações precárias, insalubres, em meio a aglomerações (dentro e fora de casa) e vielas em que o ar não circula como deveria.

Nos deparamos, assim, com uma conjuntura que nos escancara a necessidade de investimentos estatais nas universidades públicas, ponta de lança da pesquisa, de valorizarmos a ciência e de impedirmos que a saúde se torne uma mercadoria. No caso do Brasil, fica evidente a importância de defesa e fortalecimento do SUS, dada a projeção de sobrecarga dos leitos nas maiores aglomerações urbanas do país. Mais do que medidas econômicas, a problemática do outro se faz presente através da ética. Valores éticos como a responsabilidade, a solidariedade e o cuidado são parte da melhor receita existente para combater o novo coronavírus: a empatia, que tem na ausência dessa virtude o maior problema ético da contemporaneidade. Comportamento empático e responsável que falta, junto do bom senso e da censura, ao presidente Jair Bolsonaro, chefe de Estado que ignorou as recomendações da OMS e teve contato corporal com manifestantes, concentrados em uma manifestação antidemocrática e favorável aos ataques às instituições republicanas brasileiras.

O novo coronavírus, mais do que um desafio epidemiológico, é uma questão ética de suma importância em tempos de uma globalização neoliberal que estimula a competitividade, o individualismo e ignora a problemática do outro. É um dever de todos demonstrar solidariedade, responsabilidade e cuidado com aqueles que precisam de ajuda, principalmente os idosos e as demais pessoas que se enquadram no grupo de risco da Covid-19. Tenhamos, nesses tempos sombrios, um comportamento em prol do bem comum.

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL.

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