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Os limites dos movimentos em “defesa” da educação parte 2

Da Redação

Dada a riqueza de informações e a importância do debate trazido para os rumos da esquerda optamos por dividir a entrevista em duas partes (link da primeira parte). Segue a segunda parte da entrevista com Renata Spadetti do LIEPE (Laboratório de Investigação Estado, Poder e Educação) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro:

4- Voz da Resistência: Como a “Campanha” e outros organismos operam na sociedade civil?

Renata Spadetti: Essas organizações possuem estratégias aproximadas e, na maioria das vezes, trabalham em conjunto desenvolvendo projetos, atividades e materiais de divulgação. A grosso modo, podemos dizer que as suas estratégias principais se voltam para a produção de informações, análises, indicadores; mobilização da sociedade civil; mapeamento e divulgação do que eles chamam de “boas práticas”; organização de conferências, seminários, congressos, palestras, campanhas e premiações; formação de intelectuais; e articulação com o governo e com outras organizações empresariais. No caso específico da A Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE), encontramos ainda a articulação com setores progressistas.

A CNDE reúne mais de 200 instituições em torno dos fundamentos neoliberais para a educação, compondo uma frente de promoção do consenso para as diferentes classes sociais, através da conciliação. A frente movimentada pela CNDE conta com organizações empresariais, “ONGs”, acadêmicos, think tanks, entidades religiosas, centrais sindicais e movimentos sociais que atuam no campo nacional e internacional. O que deu muito trabalho para identificar, uma vez que foi preciso recorrer também a fontes externas aos materiais disponibilizados ao público pela CNDE, já que a mesma não torna público todos documentos produzidos, como por exemplo, os relatórios financeiros e as atas dos encontros do comitê diretivo.

5- Voz da Resistência: Como você vê a atuação da esquerda diante da influência da “Campanha”?

Renata Spadetti: Essa questão é bem complexa. Eu vou trazer algumas questões que levantamos no decorrer da pesquisa que podem servir como pontos de reflexão para o campo de esquerda. Sobretudo por entendermos que a trajetória das organizações de esquerda no Brasil foi marcada pela maneira como a luta de classes foi se realizando no conjunto da vida social, de acordo com cada tempo histórico concreto.

Os anos de 1980 marcaram o início de uma nova etapa da crise orgânica vivida pelo sistema capitalista mundial e brasileiro, determinando mudanças significativas na correlação de forças. O bloco histórico capitalista passou a se constituir, no Brasil, na relação entre reestruturação produtiva, avanço imperialista e neoliberalismo. A burguesia passou a difundir no senso comum a ideia de que adentramos numa nova era, com várias denominações acrescidas do prefixo “pós”, na tentativa de convencer o senso comum de que as lutas de classe chegaram ao fim e que o novo arranjo social devia ser realizado a partir do diálogo entre as diferentes classes sociais fundamentais. Nós entendemos que as novas formas de expropriação capitalista na contemporaneidade não indicam uma passagem para uma nova era, mas, sobretudo, uma atualização das relações sociais, que se perpetuam para a continuidade da reprodução da dominação de classe.

Dito isso, apontamos na pesquisa o corporativismo, a apologia à universalidade burguesa ilusória, a adesão à democracia liberal e a crise do marxismo como fenômenos que reduziram a atuação da esquerda brasileira, em prol da sua unidade classista. De um lado, enquanto o empresariado se organizava na construção de sua unidade de classe, a esquerda se desorganizava. É óbvio que esses fenômenos foram reforçados pelas derrotas históricas da classe trabalhadora, como exemplos, podemos pensar no fim do chamado socialismo real, nas derrotas das últimas revoluções, na derrota na disputa pela taxa de mais-valia, frente à ofensiva burguesa na reestruturação produtiva, no avanço do imperialismo e do neoliberalismo. Compreendemos que esse movimento é, também, resultado das questões e transformações que incidiram sobre a esquerda, iniciado na Terceira Internacional. No entanto, chamamos a atenção na pesquisa para a tendência do abandono ao marxismo, que teve efeitos tão deletérios, quanto os fenômenos desencadeados pela ofensiva burguesa sobre a classe trabalhadora.

Desorganizar a esquerda sempre foi uma estratégia da classe dominante. Nessa conjuntura, o processo de transformismo foi um elemento importante, que contribuiu para o apassivamento da classe trabalhadora, tanto pelas vias burocráticas, quanto intelectuais. Grande parte da esquerda acreditou que com a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao governo, a conciliação de classes seria possível. O projeto de grande parte da esquerda se transformou: de um movimento voltado para a transformação social e à luta anticapitalista, para a defesa de processos de inclusão ao modo de produção capitalista, apostando em políticas focalizadas no “alívio à pobreza”, a partir de parcerias com organizações e fundações empresariais. Alguns movimentos de esquerda acreditam, por exemplo, que a CNDE é, atualmente, a única organização capaz de realizar a luta pela educação pública no Brasil. E justificam essa assombrosa afirmação no que eles consideram como estratégia relevante: a capacidade de aglutinação de diferentes forças políticas.

Identificamos, por exemplo, que os intelectuais que organizam a CNDE circulam em uma gama de outros aparelhos privados de hegemonia, sobretudo da burguesia, mas não somente. Há passagens pelo CENPEC – instituição do Itaú que organiza o Projeto Mais Educação nas escolas públicas -, pela UNESCO, pela Campanha Global pela Educação, pela Campanha Latino- americana pelo direito à educação, pelo PNUD, pelo Instituto Ethos, entre outros institutos e fundações ligados à empresas e bancos. Nos perguntamos: é essa a representação necessária ao campo da esquerda? Será que essa organização congrega os interesses da classe trabalhadora para a educação? Enfim, o que os movimentos de esquerda organizados, atualmente, no Brasil, têm pensado como objetivo de luta: a inclusão no modo de produção capitalista ou a sua completa aniquilação. Já que dependendo do objetivo, as estratégias se modificam e também, se torna mais claro compreender os motivos pelos quais a esquerda se envolve com organizações como a CNDE.

6- Voz da Resistência: Como você identifica a inserção desse projeto na sociedade atual?

Renata Spadetti: A nova sociabilidade exigida pelo capital conta com aparelhos privados de hegemonia como a CNDE para sua organização e difusão. O contexto mundial nos permite compreender que o projeto de concertação, materializado nos Estados nacionais, já vem sendo construído desde antes da década de 1990, mesmo que sob bases mais brandas. A cultura da cooperação, do diálogo, da negociação e da participação sobre questões políticas, econômicas e sociais, importantes para a sociedade, vem sendo difundida em prol da “coesão cívica” e da construção do consenso em torno dos conflitos de classe, com o objetivo maior de se construir novas bases para a governabilidade. A CNDE é a expressão desse projeto no campo educacional.

7- Voz da Resistência: Diante do cenário político e econômico atual, como você percebe a projeção, desenvolvimento e evolução desse projeto encampado pela “Campanha”?

Renata Spadetti: Na minha pesquisa, esse não foi um ponto de análise, no entanto a partir de alguns elementos que surgiram nela, posso dizer que o projeto continua o mesmo. A CNDE continua difundindo o projeto burguês de Educação Para Todos coordenado e financiado pelos organismos internacionais. O campo político sofreu uma reordenação, o golpe que retirou a presidenta Dilma Rousself e a entrada de um governo de extrema direita, provocou um rearranjo na forma como as questões políticas são negociadas. Atualmente, as políticas de conciliação foram colocadas em segundo plano. Mas a CNDE ainda é necessária para o capital, ela ainda tem entrada nos campos progressistas, os áudios difundido pela CNDE possuem grande capilaridade, chegam nas Universidades com um discurso de aparência progressista, de luta contra o conservadorismo. Ao ouvir esses áudios sem os elementos de reflexão mencionados acima, torna-se mais fácil “ganhar os corações e mentes” de uma grande parte do campo progressista.

8- Voz da Resistência: Dado o momento político atual, com o governo ultraconservador, de ataque à educação, sobretudo pública, como você localiza isso dentro do projeto da “Campanha” e dos interesses dos grupos que ela representa?

Renata Spadetti: Eu indiquei alguns elementos nas questões anteriores, mas acho que a gente pode pensar pelo seguinte caminho de análise: o projeto que a CNDE representa é o projeto do capital. E o conservadorismo não é um problema para o capital, ele se reproduz e amplia em tempos autoritários ou democráticos. Florestan Fernandes já dizia que o autoritarismo não é exclusividade dos tempos de ditadura, na democracia liberal podemos viver também o autoritarismo, estamos sentindo isso com maior profundidade, nos dias atuais, é claro, num governo ultra conservador.

A CNDE ainda tem em suas bases a difusão do projeto de Educação para Todos organizado pelo Banco Mundial, UNESCO, UNICEF e PNUD aprofundado no século XXI sob o lema da Aprendizagem para Todos. Embora na aparência possa não estar tão visível, a análise da sua atuação, nos mostra as contradições presentes na sua aproximação com a agenda da educação para a América Latina, nas especificidades que a divisão internacional do trabalho capitula.


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