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Dois anos sem Marielle e Anderson

Por Juliana Drumond*

Ontem, 14/03/2020, completamos dois anos sem Marielle e Anderson. A perda foi grande, mas não é só isso que dói. Até dois anos atrás, o 14M, não estava incluído no calendário de lutas do mês de março. 14 de março de 2018 foi o dia em que a democracia foi rasgada.

O dia do feminicídio político de um corpo que a sociedade está acostumada a ver sucumbir, sem o compromisso de dar resposta: um corpo negro e favelado, um corpo de mulher. Dói, porque, até hoje, a dona Marinete não sabe o motivo de sua filha ter perdido a vida de forma tão brutal. Dói, porque a Anielle, até hoje, não recebeu as informações sobre quem mandou matar sua irmã. Dói, porque, até hoje, o senhor Antônio Francisco precisa ficar reafirmando que isso não cairá no esquecimento.

Não deixaremos que ela seja esquecida, não deixaremos que seja silenciada. Não calarão Marielle. Não nos calarão! A menina da Maré, que cresceu e se tornou um girassol, foi arrancada de nós muito cedo. Ela venceu os limites e as expectativas que estavam sobre ela e se espalhou para muito além da favela, representando todo o Rio de Janeiro. Não aceitou ser calada. A mãe da Luyara virou semente no coração da gente. Semente essa, que regada por dois anos de lágrimas, nos fazem ainda ter forças para perguntar: por que o Artur não vai mais ouvir o pai cantar canções de ninar? São dois anos esperando que se faça justiça pelo esposo da Ágatha. Esperando que alguém diga porque não haverá mais almoços aos domingos.

O movimento iniciado por Marielle representava um projeto político popular, de luta por direitos na experiência do território periférico, o que colocava em cheque o projeto político vigente; o status quo. Marielle era uma liderança que representava um projeto político de combate à desigualdade social, um projeto socialista. Ela acreditava que era preciso ter “Mais Mulheres na Política”, mas não permitiram que ela visse suas sementes; Renata Souza, Dani Monteiro, Mônica Francisco, entre outras, gritarem que ela ainda está presente.

Ela construiu e deixou um grande legado. Seu nome e sua história se tornaram uma plataforma para levantar mulheres, para colocá-las no lugar que ela deixou, mas que não ficará vazio nunca mais. A ausência de respostas para um crime brutal, que tirou a vida de uma parlamentar, se coloca como um ataque aos princípios democráticos e faz ecoar a pergunta: quem mandou matar Marielle?

A atuação destemida e coerente, que não se curvava sob o modelo da velha política e sua roupagem através da milícia, fez com que o seu legado sobrevivesse ao seu assassinato. Suas pautas ganharam voz, ganharam o mundo, viraram sementes. Continuaremos gritando, lutando e dizendo que os seus dois anos de mandato ecoarão em nós, que o que você representou e representa não será apagado.

Mataram a companheira da Mônica Benício, mas Marielle Franco resistirá na história. A trajetória de Marielle e o silenciamento de seu corpo nos ensinam que fazer política é lutar na dor. A dor nos endurece, mas também nos humaniza. A luta por direitos humanos, nesse país, jamais será a mesma após a atuação da vereadora eleita Marielle Franco. Aqueles e aquelas que constroem política, respeitando o seu legado, sabem que a dor estará sempre presente, mas a luta por uma sociedade mais igualitária será feita com humanidade, busca por justiça e enfrentamento.

Somos gratas e gratos à Família Franco pelo Instituto Marielle Franco e pela construção do 14M. Obrigada por criar um espaço onde nossas vozes se fortalecem!

*Juliana Drumond é mãe, professora, historiadora, dirigente sindical. Militante do PSOL dialogando construções de uma alternativa à esquerda para São João de Meriti.

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