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A tempestade perfeita e como a economia brasileira pode reagir

Por Gustavo Noronha*

Desde 2008, na última grande crise financeira, o mercado (essa divindade dos tempos modernos) não vivia um dia tão agitado quanto essa última segunda-feira. Uma tempestade perfeita que combinou uma queda abrupta do preço do petróleo (que arrastou quase todas as commodities) as paralisações de plantas e quarentenas decorrentes das preocupações com a possibilidade de que o COVID19 seja a pandemia fatal com que a natureza de vez em quando presenteia a humanidade. Independente dos fatos conjunturais, pelo menos desde 2018, Nouriel Roubini, que se tornou famoso por ter antecipado a crise de 2008, vinha apontando 2020 como o ano da próxima forte crise.

Desde que surgiram as primeiras notícias do potencial pandêmico do COVID19 diversos analistas começaram a alertar dos possíveis impactos na economia global. O fato é que de lá para cá, o novo coronavírus já colocou em quarentena diversas localidades no mundo (cidades, províncias e mais recentemente toda a Itália), plantas industriais na China responsáveis por elos importantes na cadeias globais foram paralisadas. A pergunta já não é mais “se” a epidemia vai chegar, mas “quando”. Notícias publicadas na imprensa estadunidense dão conta de que os EUA não estarão preparados para o impacto da doença ainda que ela se consolide de forma moderada no país – isto num país onde não é assegurado o direito de ausência ao trabalho por doença pode ter efeitos catastróficos. Na economia, a perspectiva é que diversas cadeias produtivas sigam sendo paralisadas e o PIB mundial sofra fortes abalos.

E neste cenário que surge uma disputa no âmbito da OPEP entre Arábia Saudita e Rússia que derruba os preços do Petróleo a um patamar que não se via desde 1991. Os preços de quase todas as commodities foram arrastados para baixo ainda que com menos intensidade, salvaram-se o ouro (ativo dos que buscam segurança), gás natural, trigo e outras duas mercadorias de menor relevância. As fortes reações nas bolsas de valores no dia 09 de março último mostram no mínimo a insegurança dos donos do dinheiro. O cenário caótico de busca pela segurança diante da instabilidade também provocou uma desvalorização das principais moedas do mundo frente ao dólar.

Mal curou-se a ressaca da tempestade perfeita da segunda-feira sombria de março de 2020, o noticiário econômico informa que a diminuição na atividade econômica pode comprometer a capacidade de pagamento das dívidas corporativas de empresas não financeiras. Há temores fundamentados de que a necessidade de refinanciamento para 2020, na casa de US$ 1,3 trilhão, não seja factível. A conta chega a US$ 4,4 trilhões em três anos de uma dívida total de US$ 13,5 trilhões, o dobro de 2008,, sendo US$ 10,5 trilhões dos países desenvolvidos de acordo com as informações da OCDE. O risco de calote fica ainda maior com o baixo preço do petróleo, se sustentado por um prazo muito longo, que inviabiliza as petrolíferas de xisto nos EUA, colocando um risco adicional no mercado de crédito estadunidense.

Nesta conjuntura internacional extremamente adversa o Brasil se vê engessado pela EC nº 95, do teto de gastos, que inviabiliza a adoção de políticas fiscais anticíclicas, particularmente urgentes em períodos como o atual. Não apenas isso, todos os discursos da equipe econômica do Governo Bolsonaro apontam para a necessidade de mais reformas para responder à crise. Num momento em que se precisa estimular a demanda agregada, Guedes e sua turma seguem presos no fanatismo dos cortes de gastos.

Temos no Brasil um oligopólio midiático que vende a ideia de que o liberalismo econômico seria um valor universal, sem possibilidade de questionamentos.. O que não explicam é que essa responsabilidade fiscal por trás das medidas de austeridade apregoadas pelos liberais é de uma brutal irresponsabilidade econômica e social. Aliás, cortar gastos como segue propondo a equipe econômica também é fiscalmente irresponsável porque derruba a atividade econômica que por sua vez provoca uma queda na arrecadação.

Não há nenhum obstáculo ao gasto público para um país emissor de sua própria moeda, com oferta suficiente de trabalho e sem restrições externa (e temos uma altíssima taxa de desemprego e sólidas reservas internacionais herdadas dos governos anteriores). O déficit do setor público é o superávit do setor privado e, portanto, o superávit público significa o déficit das empresas e famílias. Se a depressão da qual o Brasil ainda não conseguiu-se recuperar totalmente já exigia medidas fiscais anticíclicas, a crise internacional torna esta ação urgente. O fim do teto dos gastos é para ontem!

*Gustavo Noronha é economista

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