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Rui Costa não é o “Bolsonaro da Bahia”

Por Alê Costa*

A despeito da luta incessante contra os servidores públicos desencadeada pelo Governador do Estado da Bahia, Rui Costa (PT), no tocante a reforma previdenciária no âmbito do estado, é imprecisa a ideia de que ele seja uma espécie de cópia local do Presidente da República.

Em que pese ter colocado o aparato repressivo da PM para ocupar a Assembleia Legislativa contra manifestação legítima e para desocupar o Colégio Estadual Odorico Tavares em ato l dos estudantes contra a venda daquele espaço público histórico dos baianos, localizado em área nobilíssima da capital, Rui não merece ainda o referido apelido.

Embora seja diretamente identificado e entusiasta da política racista e genocida de segurança pública empreendida pelas forças de segurança; embora esteja de mãos dadas com diversos políticos e partidos fundamentalistas e conservadores que, inclusive, ocupam espaços de governo e conformam a sua base de sustentação na Assembleia Legislativa e nos municípios; ainda assim, embora parecer lutar muito para fazer jus ao odioso epíteto, nem tudo que reluz é ouro, ou melhor, nem tudo que parece, é.

Assim, os teóricos de esquerda devem se esforçar para se ater ao máximo a essência em detrimento da aparência dos fenômenos. Nesse caso, numa análise mais ou menos aprofundada, por motivos que saltam aos olhos, não nos parece ser apropriada a comparação.

Nunca é demais dizer que o Governo Bolsonaro é parte de um cenário político de ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo, por razões políticas mas também econômicas. Numa leitura apressada, me parece que o ultraliberalismo terá que fazer uso do expediente desse tipo de governo para sedimentar o seu caminho. Portanto, não me parece razoável crer que um governador petista faça parte desse estratagema, ainda que ele busque muito isso.

Rui Costa é um político conservador. Quem acompanha um pouco a política baiana dos últimos 15 anos, corrobora conosco. O fato dele ter sido escolhido pelo PT baiano para encabeçar a sucessão de Jaques Wagner em 2014, revela a melhor contradição disso tudo, já que era o único que sintetizaria aliança com o PSD de Otto Alencar, com o PP de João leão e com as mais variadas oligarquias pelo interior baiano afora, o que culminaria depois com a sua reeleição num pleito histórico em que conseguiu mais de 70% dos votos em 2018. Fosse um político de esquerda, poderia gozar de maior ou menor aprovação popular mas jamais seria um dos dirigentes da aliança conservadora que levou e mantém o PT no governo do Estado desde 2006. Fosse um político de esquerda jamais faria terra arrasada da oposição de direita que por força das circunstâncias se viu obrigada a apoiar a reforma previdência capitaneada pelos petistas. Contudo, se Bolsonaro não é produto do PT, como quer fazer crer certo ex-presidenciável, Rui Costa é o PT pronto e acabado, “cuspido e escarrado”, como diz o ditado popular.

E aí eu aponto um argumento contra a ideia de que Rui “Correria” é o “Bozo da Bahia”: dizer isso é tirar toda a responsabilidade do PT e de parcela da esquerda em todo esse processo. Não fosse assim, por exemplo, haveria manifestações dissidentes de parlamentares petistas, coisa que ninguém até agora constatou.; haveria manifestação das direções petistas, o que não é de conhecimento público. Portanto, não sendo Rui o “Bolsonaro Baiano”, a sua política conta com o consentimento expresso ou tácito do Partido dos Trabalhadores, embora se reconheça que esta política não conta com a adesão de todos os petistas.

Rui é uma das expressões do que se tornou o PT; Rui é resultado do que o “lulismo” transformou o partido: um partido de resultados, que esmaga a militância mas que coopta dirigentes e movimentos. Não se nega aqui o papel histórico que esse partido cumpriu e pode cumprir na atual conjuntura; não se vaticina aqui que o “PT morreu” ou qualquer coisa nessa linha. Mas diz muito do que é o PT e seus governos e suas muitas contradições que precisam ser melhor identificadas e trabalhadas para a construção de uma alternativa socialista para o Brasil.

Rui Costa não é o Bolsonaro baiano tampouco o PT é um partido de esquerda na Bahia.

*Alê Costa é escritor e filósofo

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