ArtigosOpinião

Territórios Livres de Nazismo, Corpos Livres de Opressão

Por Débora Aranha*

Quando foi anunciada ontem (20) a terceira condenação de João Teixeira (“João de Deus”), desta vez a 40 anos por crimes sexuais cometidos contra cinco mulheres na casa espiritual que mantinha em Abadiânia, não pude deixar de pensar no significado individual e histórico dessa condenação.

Passou-se mais de um ano desde que as denúncias das primeiras 10 mulheres foram ao ar, e que a holandesa Zahira Lieneke Mous teve a coragem de ser a primeira mulher a mostrar publicamente seu rosto, inspirando inúmeras outras a sair da invisibilidade, quebrando também 40 anos de silêncio e impunidade em torno de agressões sexuais do líder espiritual. Desde então, cerca de 600 mulheres em 7 países procuraram as autoridades brasileiras para denunciar e pedir ajuda – mulheres que procuraram o líder espiritual em momentos de extrema vulnerabilidade, em um ato de fé, e o que encontraram foi abuso e violência. Não há registro comparável, na história do nosso país, quiçá na história mundial contemporânea, de um mesmo homem tendo cometido repetidamente, ao longo de décadas, atos de violência sexual contra tantas mulheres e crianças. Depois que as denúncias vieram à tona, os olhos do mundo recaíram sobre o Brasil: que resposta a sociedade e a justiça brasileira dariam? Desta vez, a violência havia atravessado fronteiras, era impossível ignorar a voz de tantas mulheres que, com riqueza de detalhes, contavam a mesma história, expondo uma ferida aberta no seu corpo e seu coração. Histórias que tive a oportunidade de ouvir de algumas delas nas oitivas e sessões de aconselhamento e que me trouxeram lágrimas de tristeza e indignação. Num país em que, principalmente por medo, vergonha, apenas 7,5% das vítimas de agressão sexual reporta à polícia, e quase a metade silencia totalmente, sem nunca contar a ninguém, essas mulheres deram voz a cerca de meio milhão de outras que sofrem agressão sexual todos os anos.

A sentença da juíza da Comarca de Abadiânia traz alívio para as vítimas e também lança um raio de esperança em um momento difícil de nossa história, se lembrarmos que apenas dias antes, o então Secretário da Cultura divulgava um vídeo em que se inspirava no ministro de Propaganda nazista para lançar o Prêmio Nacional das Artes.

Penso na coragem de Zahira, nos tantos momentos difíceis em que teve que revisitar aquela sombra no seu passado para lutar por justiça, e como foi justamente através da sua arte como dançarina e coreógrafa, de uma arte desafiadora e libertária, que ela traçou seu próprio caminho de empoderamento pessoal e agora inspira outras mulheres a também se libertarem e darem um basta na violência. Se dependesse do ex-Secretário e sua política nefasta, artistas como ela, e como Karina Buhr, que recentemente também rompeu seu silêncio sobre os estupros pelo babalorixá Dito de Oxóssi, não teriam espaço de expressão. Mas artistas resistem e arte que inquieta, provoca, revoluciona, é maior do que o machismo que tenta nos calar. Como disse Manuela D´Ávila, viva os territórios livres do nazismo, do fascismo, da opressão. Da mesma forma, cada uma dessas mulheres que se levanta está reivindicando o direito a que seus corpos sejam seus próprios territórios livres do abuso e da violência, corpos livres para decidir, para amar, e para dizer sim ou não.

Se a sentença anunciada ontem é uma resposta da justiça brasileira de que a violência sexual é um crime contra a dignidade humana inaceitável, resta que a justiça chegue também para mulheres e meninas negras das periferias, as principais vítimas de tantos Joãos, Ditos e “Não-Ditos”.

*Débora Aranha – Ex-presidente do Movimento Contra o Tráfico de Pessoas e voluntária do Instituto Latino Americano de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos – ILADH Nordeste, onde coordena uma rede de apoio a vítimas internacionais do caso João de Deus.

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar