Editorial

Sobre o ataque dos EUA ao Irã

Da Redação

Há ainda muita especulação sobre os motivos que levaram Donald Trump a ordenar o assassinato do “Zero 2” do Regime dos Aiatolás, General Qasem Soleimani. A rigor a morte de Soleimani não foi o único episódio dessa nova investida americana contra o Irã. Horas depois outro ataque, supostamente com mísseis teleguiados, vitimou comandantes paramilitares iraquianos, próximos a Teerã.

Sem dúvida a ação de Trump foi ousada, e até de certa forma inesperada. Não à toa provocou a imediata reação dos democratas que condenaram de pronto a investida, inclusive a pré-candidata a Casa Branca Elizabeth Warren.

Muito se fala em uma jogada eleitoral de Trump para sair das “cordas”, desde que foi aprovado o processo de impeachment na Câmara dos Representantes, com o objetivo de reavivar na opinião pública americana o sentimento de nacionalismo. Mas tal explicação parece limitada, sobretudo quando se remonta a disputa estratégica que envolve uma das maiores reservas de petróleo do mundo.

O fato é que o ataque ao general iraniano tem todos os indícios de ser um ato de provocação, destinado – a depender da reação iraniana – a escalar uma campanha de cerco e asfixia do país persa, e que pode chegar a uma guerra aberta.

Ataque de drone coordenado pelos EUA ao aeroporto de Bagdá mata Soleimani e ao menos sete pessoas

Quem ganha com isso? Em primeiro lugar a dupla Israel e Arábia Saudita, enfraquecidos com a derrota na Síria, onde foram incapazes de derrotar Bashar al Assad, aliado dos iranianos. Ambos temem o crescimento da influência iraniana no Golfo Pérsico.

Em segundo lugar, os EUA que não assimilaram a ideia de que o Irã – tradicional inimigo desde a derrubada do regime satélite do Xá Reza Palhavi – controle as principais rotas marítimas do petróleo mundial.

Frente ao inexorável declínio dos EUA, Trump continua atrás de uma guerra para chamar de sua. Para os falcões de Washington esta é a forma de tentar fazer reequilibrar a balança do poder mundial, que cada vez mais pende na direção da China e seus aliados.

O papel da China, com sua política expansionista, também não pode ser desconsiderado. O gigante asiático é um esteio para a economia iraniana, agredida pelo brutal embargo imposto pelos Estados Unidos. Cada vez mais o Irã se mostra estrategicamente importante.

O que não se tem dúvida é que o assassinato de Qasem Soleimani é mais uma agressão imperialista americana, o que merece por si só a condenação por parte de toda esquerda. Essa denúncia deve ser repercutida por todas as figuras públicas, parlamentares, dirigente partidários, do movimento popular e sindical, que se posicionam no campo anti-imperialista.

Por outro lado, é preciso denunciar a subserviência irracional de Bolsonaro a Trump, que no caso do Irã, poderá trazer prejuízos reais a economia nacional, que mais uma vez amarga crescimento pífio.

É provável que a crise provocada por Trump repercuta no preço do combustível a nível mundial, e consequentemente, impacte o Brasil. Isso cria um ambiente fértil na opinião pública sobre a importância estratégica do controle energético, sobretudo o petróleo. Não foi à toa que o primeiro pronunciamento do Bolsonaro sobre a questão dos combustíveis perante a iminente subida nos preços foi a reafirmação de que não haverá tabelamento, e que a saída é o livre comércio.

A verdade é que o povo entende a linguagem da bomba do posto de gasolina. E se o combustível aumentar mais, e as forças populares conseguirem relacionar esse aumento a desregulamentação do setor, se poderá sair da crise que está por vir com uma vitória estratégica sobre uma parte importante do discurso lavajatista/entreguista de que a Petrobras é ineficiente e por isso deve ser vendida.

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