Editorial

É preciso estar atento e forte

Da Redação

A semana se inicia com uma onda intimidatória do governo com declarações do próprio Bolsonaro sobre a mudança de perfil da GLO e do Ministro Paulo Guedes sobre o AI- 5. Subestimar tais declarações parece um erro. Mudar o foco e dar atenção para a atitude diversionista da Ministra Damares no evento que deveria marcar uma posição governamental sobre a luta contra a violência contra mulher é um duplo erro.

Talvez Bolsonaro esteja superestimando a possibilidade de influência dos “ventos” anti-sistêmicos vindos do Equador, Chile e agora da Colômbia. A realidade das mobilizações brasileiras em 2019 não indicam nenhuma resistência de massa, por fora da bolha para 2020.

Com exceção de 15 de maio, as demais manifestações não chegaram nem perto de colocar em risco o projeto do governo e seus aliados no parlamento. Não houve pressão alguma, sobretudo depois da aprovação em primeiro turno da Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados. A questão é que Bolsonaro tem a plena noção de que o pacote constitucional de Guedes é agressivo demais para passar em branco. Haverá manifestações, mas elas podem ficar restritas aos patamares de 2019.

O problema está na condição de vida do povo, que piorou sensivelmente nos últimos anos. Uma pesquisa recente da XP Investimentos trouxe o dado de que ainda há um senso comum majoritário de que a culpa ainda é do PT. Até quando essa narrativa se sustenta? Teria Bolsonaro informações privilegiadas sobre o “humor” do povo ou seria apenas excesso de zelo?

É possível que Bolsonaro tenha aprendido com o processo de impeachment de Dilma, e queira se resguardar, a sua maneira, contra qualquer possibilidade de convulsão social, sobretudo aos moldes de 2013. Para a esquerda em geral, a sensação é de espera. Esperar que o povo se revolte, fazendo com que a realidade se imponha de tal forma que a luta anti-sistêmica, atualmente, voltada para a luta contra a política e os políticos ganhe outros contornos e inclua a luta contra os atuais detentores de poder: pastores, milicianos, políticos pastores e milicianos e seus aliados.

Não se pode desmerecer que a entrada de Lula no debate político cria uma audiência que a esquerda não tinha. A fala na saída da prisão em Curitiba, bastante moderada, gerou estardalhaço na direita, que chegou a propor a prisão preventiva de Lula por tais declarações.

Isso significa que a linha da direita aqui e na Bolívia é a do golpe contínuo. É um caminho que não tem volta. Não vão deixar Lula concorrer a nada e ainda inviabilizar qualquer alternativa política à esquerda. Se tiverem que condenar e prender Haddad, vão fazer. Na atual correlação de forças é o que está colocado.

Cabe então aos lutadores sociais viver um dia de cada vez. Fazer acabar 2019 sem mais derrotas é a primeira meta. Sair da defensiva é o ponto de inflexão que buscamos, mas como fazer, eis a questão. De toda forma, quando um Ministro de Estado fala em retomar o AI-5 é preciso se pensar seriamente em se preparar para o pior.

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Fechar
Fechar