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A Resistência Popular na Bolívia e sua importância para luta contra a hegemonia americana na América Latina

Por Juliana Brandão*

A instabilidade política que levou ao golpe de Estado consumado em novembro deste ano, precedeu uma forte pressão externa ao país, fruto da disputa global pela América do Sul. Os grupos de oposição ao governo na Bolívia atuam por influência direta dos Estados Unidos, para os quais é mais importante manter uma desigualdade social e dependência do país do que uma economia forte e independente.

A violência apresentada pelos militares e grupos da oposição , ao pressionar a renúncia de Evo Morales, em muito reflete a importância da agenda econômica dos Estados Unidos no país, bem como o risco que uma Bolívia próspera representa na correlação de forças políticas na na geopolítica. Trata-se do país que registrou o maior crescimento econômico da América do Sul, de em média 5% ao ano. Se formos comparar com o Brasil, por exemplo, a diferença é muito grande, pois aqui os dados do IBGE apontavam para cerca de 1% (2o trimestre de 2019). Dentre as medidas econômicas que caracterizaram o chamado “milagre econômico”, desde a chegada de Evo Morales ao poder, estão a nacionalização do gás natural e do petróleo.

As medidas de estatização das empresas dos principais produtos do pais, do governo Evo Morales, juntamente com uma política fiscal de financiamento de políticas de transferência de renda e combate à miséria, como o Bono Juancito Pino e o Renta Dignidad, desagradou bastante as elites aliadas à oposição no país, bem como as grandes multinacionais americanas que negociavam no mercado de petróleo. Por outro lado, os efeitos dessas medidas foram muito bem recebidos pelo povo boliviano, cujo índice de pobreza caiu de 63 para 35% de 2005 a 2018.

Desenhou-se na Bolívia um quadro de polarização claro de interesses entre medidas governamentais que significavam melhoria de renda, condições de trabalho e prosperidade de um lado, e menor espaço para livre concorrência de mercado e negócios de outro. A esse quadro, deve-se acrescentar um panorama de rejeição das elites pela figura política de Evo Morales, camponês, índio e líder sindical. As elites da Bolívia não se contentaram com as ascensão das classes populares, e melhoria de condições de vida e crescimento econômico sob a liderança de Evo, e o golpe de Estado de novembro deste ano constatou que a oposição é composta por um grupo fundamentalista, além de violento.

A intervenção americana na política boliviana, caracterizada pelas exigências da Organização dos Estados Americanos para novas eleições, demarcou explicitamente os interesses da oposição em se manter subserviente aos interesses das multinacionais em detrimento das melhorias sociais. No entanto, a aceitação social de Evo Morales, que o fez acatar a sugestão da OEA e chamar novas eleições, foi elemento crucial para o golpe de Estado no país. Era necessário retirar o candidato eleito e aceito pelo povo, mas que não cumpria as exigências de condução econômica e política que agradava aos Estados Unidos.

Apesar de consumado, o golpe de Estado na Bolívia tem contado com diversas manifestações populares, demonstrando propensão da população do país a reagir contra as intervenções que não manifestam sua vontade. A Federación de Juntas Vecinales, vem organizando, juntamente com outros grupos e organizações, constantes manifestações e ocupações que têm impedido a consolidação do golpe no país.

Resistir ao fundamentalismo da ultradireita, bem como a manipulação midiática e politização da polícia e forças armadas, é de fundamental importância para o estado de alerta que o caso da Bolívia deixou no Brasil e em outros países da América Latina. Aqui, de maneira similar, temos instituições como o ministério público atuando em favor dos grupos de oposição ultradireitistas e direitistas, ressentimento das classes em relação à melhoria de condições de vida da população pobre, e uso de violência para consolidar posições políticas.

*Juliana Brandão é economista formada pela UFPA e possui pesquisa em Macroeconomia e Crescimento Econômico na América Latina.

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