Editorial

Entre a luta dos povos e a autocrítica

Da Redação

Os eventos que irromperam na América Andina nos últimos meses não deixam dúvidas de que a luta de classes será tônica dos próximos anos em toda América subdesenvolvida. Se no Chile e no Equador a luta por direitos foi estopim de um grande movimento de massa, que balançou as estruturas de governos neoliberais comprometidos com interesses das elites locais e internacionais, na Bolívia a situação se inverte.

Uma onda reacionária derrubou o governo constitucional de Evo Morales. E o que foi visto foi uma alta dose de ressentimento, e por certo, a organização das antigas elites coloniais dispostas a tudo para retirar Evo e seu projeto de diminuição da desigualdade na Bolívia. A vida de Evo e de seu vice Garcia Linera corria risco, por isso foi acertado o recuo (exílio) para reorganização da resistência.

Na Bolívia, o script do Golpe foi o mesmo: intervenção americana, militares e poder econômico empresarial. A novidade foi o papel neopentecostal e a guerra hibrida, que mais uma vez mostrou eficácia.

O Golpe na Bolívia deve nos fazer refletir sobre o quão importante é a influência de governos populares sobre o aparato policial militar. Está mais que provado que recorrer ao espírito nacionalista do alto oficialato é um erro histórico.

As rebeliões no Chile e no Equador também deixam lições sobre o limite imposto às populações pela agenda neoliberal. Os ataques aos direitos básicos produzem explosões de descontentamento, que só ganham a forma de mudança social se de fato forem orientadas pelas forças políticas de cariz popular, sejam movimentos ou partidos.

O amadurecimento de um programa nacional e o enraizamento junto a população são cruciais para uma mudança qualitativa na correlação de forças.

No Chile, onde a luta popular parece ter avançado mais, a convocação de uma constituinte é uma importante vitória, mas as forças conservadoras já armam um golpe contra a vontade popular que é a definição do quórum de 2/3 para a aprovação do texto constitucional.

É possível que os ventos que sopram dos Andes cheguem ao Brasil e possam colocar o povo em movimento contra as mudanças constitucionais propostas por Guedes. Mas não basta ser contra ou repetindo a proposta da crítica americana Naomi Klein: “Não basta dizer não”.

A esquerda precisa ser propositiva. As condições do povo brasileiro pioraram sensivelmente e a organização contra o projeto de Bolsonaro/Guedes não se dará somente com palavras de ordem como “não passará” ou “ele não”. Apesar das manifestações reativas ainda cumprirem um papel importante.

Durante a Reforma da Previdência isso ficou bastante óbvio. Estranho que a esquerda tenha sido incapaz de denunciar o privilégio da casta do judiciário, que de fato tem condições especiais de aposentadoria, ou mesmo feito um projeto de emenda constitucional como proposta para a previdência.

A autocrítica tão falada só faz sentido se tiver guiada pela unidade de forças contra o fascismo e seus aliados da extrema direita neoliberal e pentecostal. É verdade que não haverá unidade sem “cotoveladas”, mas mesmo reconhecendo a existência de profundas divergências, a tais críticas ou os chamados a autocriticas tem limites. E isso ficou expresso no giro do Ciro Gomes a direita.

A autocrítica do PT, por exemplo, no atual cenário de desproporcional intervenção das forças democráticas em relação aos robôs fascistas na mídia e nas redes sociais soará como um pedido de desculpa simplificado e tosco, confuso para maioria da população e reforçará a imagem de Lula ladrão e da esquerda “quadrilheira”. Não ajudará em nada na gestão do novo.

A legitimidade para chamar a autocrítica estão naqueles (as) que defenderam incondicionalmente o interesse popular. Por isso, a esquerda não pode cair na armadilha de colocar a autocritica no centro do debate de forma abstrata, pois dessa forma servirá para legitimar parte dos argumentos da direita.

Por fim, autocrítica não se pede, autocritica se conquista com acerto nas posições, camaradagem e coerência. Só se assume sinceramente erros cometidos no passado num ambiente de total confiança e a partir da certeza de que a autocritica não será utilizada mesquinhamente para alcançar essa ou aquela posição.

Mas, sobretudo, não será a falta de autocrítica que deverá obliterar o caminho da unidade das forças de esquerda. Quem de esquerda colocar a autocrítica como condicionante para unidade, em pouco tempo também será cobrado em fazer a sua, mas em condições bem piores da que estamos.

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