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Bolsonaro e o mistério da casa 58

Por Leonel Camasão*

A velocidade com a qual as autoridades competentes (?) decidiram enterrar a possível ligação dos assassinos de Marielle Franco com a casa do presidente Jair Bolsonaro é impressionante. Poucas vezes o judiciário e o Executivo agiram de forma tão rápida. Tão rápida que é difícil de engolir a nova versão da mídia e do clã sobre os fatos, de que o porteiro teria mentido, sem motivo aparente.

É surpreendente que, após publicar denúncia tão forte, o Jornal Nacional assume como verdadeira a versão de Carlos Bolsonaro, que exibiu supostos áudios da portaria, supostamente do dia 14 de março de 2018, que em sua versão, “comprovariam” que o porteiro mentiu.

As imagens publicadas por Carlos Bolsonaro provam coisa alguma, nem judicial, nem jornalisticamente.

Não precisa ser hacker treinado em Araraquara para saber que os arquivos de áudio exibidos por Carlos poderiam, a um clique, ter seus nomes alterados. Poderiam ser áudios de qualquer dia. Ou ainda: os áudios que efetivamente comprovariam a versão do porteiro poderiam simplesmente ter sido deletados. O MP não sabe se arquivos, entregues voluntariamente pela administração do condomínio, foram apagados, como mostra o UOL.

Observem: no papel, o porteiro anotou o horário 17h10. No áudio exibido por Carlos, a ligação para Ronnie Lessa ocorreu três minutos depois, às 17h13. É perfeitamente plausível que o porteiro, ao reparar que Élcio de Queiroz não foi para a casa de Bolsonaro, ligou para a casa 65 em seguida para confirmar se o visitante era bem vindo. Também é plausível que o arquivo com o horário de 17h10 tenha sido deletado por alguém.

Lembremos: estamos lidando com gente que comanda uma indústria de notícias falsas e manipulações há anos. Assumir a versão de Carlos como verdadeira, sem nenhuma checagem, é pura irresponsabilidade.

Carlos assume o papel do Ministério Público: ele, filho de um dos principais implicados no caso, exibe as provas publicamente, enquanto uma promotora contenta-se em dizer que o porteiro mentiu sem comprovar de fato essa versão.

Até porque, quem comprovadamente mentiu foi Carlos Bolsonaro: no Twitter, afirmou que não estava em casa no dia da morte de Marielle. Porém, os áudios que ele mesmo publicou o colocam no residencial Vivendas da Barra no horário em que os principais suspeitos entraram no condomínio. Carlos Bolsonaro, que tinha gabinete vizinho ao de Marielle, também era vizinho dos assassinos. E estava a poucos metros de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz na data do crime.

Diversas evidências apontam a proximidade entre as milícias e a família do Presidente da República. Se você fosse a promotora do caso, teria coragem de enfrentar esse tipo de quadrilha? A promotora não teme pela própria vida, e por isso, está ajudando a abafar o caso? Lembremos: as milícias já assassinaram centenas de pessoas, entre elas, uma vereadora e uma juíza.

Ou ainda: seriam as promotoras cúmplices das milícias? Segundo postou no Twitter Leandro Demori, do The Intercept, Carmen Eliza Bastos de Carvalho é abertamente bolsonarista: comemorou a vitória de Jair nas redes sociais e até postou fotos com Daniel Silveira, deputado que quebrou a placa em homenagem à Marielle.

Há de fato um sistema de interfones neste condomínio? Ou as ligações são feitas diretamente para os celulares dos proprietários? Há sistema de “siga-me”?

É coincidência que, na véspera da divulgação do depoimento do porteiro pelo Jornal Nacional, o Ministério Público tenha vazado para o Uol outra versão, que desvincula totalmente o caso da família Bolsonaro?

Porque Carlos Bolsonaro mentiu que não estava no condomínio no dia do crime? Porque ele supostamente pediu um Uber, se declarou à Justiça Eleitoral ter dois veículos em seu nome? “Seu uber chegou” seria uma senha, para avisar algo?

Por fim, porque a esposa de Ronnie Lessa enviou uma foto do livro de registros da portaria para Ronnie Lessa, se esta planilha nada comprova?

Precisamos de respostas.

*Leonel Camasão é Mestre em Jornalismo pela UFSC.

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