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A América Latina em chamas: novo ciclo de espoliação e a resistência popular

Por André Abreu*

Não é novidade que a América Latina, inserida no processo de desenvolvimento desigual e combinado, está posicionada na periferia do sistema-mundo capitalista. O próprio termo “América Latina” foi apropriado por Napoleão III no século XIX como instrumento da disputa geopolítica entre o domínio europeu e o estadunidense dos territórios americanos, buscando a identidade cultural para opor países de línguas latinas e predominantemente católicos aos Estados Unidos, de língua anglófona e de maioria protestante.

Essa disputa se deu – e ainda se dá – no contexto do imperialismo. Por diversos motivos – a saber, a concorrência, o subconsumo ou o problema do excedente – os capitalistas se mantém buscando novas regiões de exploração na fronteira do sistema, obtendo fornecimento mais barato de matéria-prima ou de terras para abaixar os custos de produção, de um lado, e consolidando novos mercados (de consumo e de capital), de outro.

Esse sistema de espoliação, que se consolida em diversas periferias do mundo, geralmente alia-se às elites locais, cujo amplo domínio sobre o Estado cria enormes obstáculos ao estabelecimento, na prática, de direitos sociais, civis e políticos. A elite sabe que esses direitos inviabilizariam o “capitalismo de pilhagem” praticado na América Latina desde a colonização. A reprodução ampliada do capitalismo a nível global depende de uma relação complexa entre o centro e a periferia, de maneira que o bem-estar social e a “civilização” no centro dependem da espoliação violenta e da barbárie imposta à periferia. Em geral, as ditaduras latino-americanas do século XX surgiram nos momentos em que a mobilização social ameaçou, simultaneamente, esse modelo oligárquico de acumulação por espoliação e o domínio geopolítico dos Estados Unidos sobre a região.

Atualmente, a aliança entre o neoliberalismo e o neoconservadorismo também tem por objetivo ampliar o processo de espoliação na América Latina. Foi com esse intuito que se deram os golpes jurídico-parlamentares de Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016) e a perseguição política contra Rafael Corrêa no Equador e Lula no Brasil, bem como as tentativas de golpe na Venezuela e na Bolívia (esta última desde 23/10/2019).

O que está por trás da ascensão da direita autoritária na América Latina e da resistência popular contra esse processo que se tem observado em países como Equador, Peru e Chile? Encontramos respostas na crise. Uma das dimensões da crise atual do capitalismo é a hegemonia do capital financeiro sobre o produtivo. A agenda de privatizações e precarizações das relações de trabalho ampliou o desemprego, o subemprego – ironicamente chamado pelos liberais de “empreendedorismo popular” – e a desigualdade. O aumento da desigualdade e o avanço do capitalismo financeiro produziram uma crise de excedente, ou seja, a redução do nível de consumo pela população dificulta a reprodução do capital acumulado, uma vez que, obviamente, para a economia crescer é necessário o consumo em massa da mercadoria.

Indígenas se unem a manifestantes para bloquear vias e estradas em protesto contra a política econômica do governo em Machachi, na província de Pichincha, no Equador, na segunda-feira (7) — Foto: Rodrigo Buendia/AFP

Em vez de implementar políticas de redistribuição de renda e geração de empregos dignos, a extrema-direita adota políticas de desmonte de empresas estatais e de direitos, capitaneadas por processos de privatização de empresas e da natureza, com apoio dos rentistas do setor financeiros, ávidos pela abertura de novos ativos onde possam aplicar o excedente gerado pela crise. Tal política, entretanto, impede a retomada de patamares elevados de crescimento do setor produtivo, inviabilizando a geração de empregos e agravando a degeneração social. O setor produtivo, diante da recessão, da estagnação ou do baixíssimo crescimento, volta-se contra a proteção ambiental e trabalhista, buscando reduzir os custos de produção através da redução do capital investido no trabalho e em algum nível de responsabilidade ambiental, o que nos ajuda a entender a situação atual da Amazônia. É contra esse processo que se insurgem os trabalhadores e os indígenas da CONAIE[¡] no Equador. Processos similares de busca por direitos – atacados pela direita autoritária – têm ocorrido no Peru, no Chile e na Argentina, além da Colômbia, onde uma célula das FARC anunciou recentemente o retorno à luta armada.

Mais uma vez os movimentos anti-imperialistas – indígenas, quilombolas, camponeses, sem-terra, sem-teto, sindicalistas – mobilizam-se radicalmente contra o novo ciclo de espoliação do povo latino-americano. Os comunistas não integram ou dirigem muitos desses movimentos, mas precisam apoiá-los, pois deles podem surgir alternativas reais, à esquerda, de consolidação de um projeto popular para a América Latina, como já ocorreu antes em países como a Bolívia, onde o movimento contra a privatização da água em Cochabamba (2000) deu origem a um processo popular que culminou, posteriormente, na eleição de Evo Morales à presidência.

[¡]Confederação Nacional de Indígenas do Equador

*André Abreu é pesquisador e mestrando de Geografia na UFF.

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