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A traição dos EUA aos curdos: o fim de uma “aliança” pontual

Por Felipe Werminghoff*

A medida de Donald Trump de retirar os cerca de mil militares estadunidenses da fronteira entre Turquia e Síria traz sérias consequências para a estabilidade regional do Oriente Médio. O contingente de soldados em si faz pouca diferença. O grande problema desse anúncio feito pelo presidente dos EUA é dar carta branca ao presidente turco, Erdogan, de atacar os curdos dentro do território sírio.

Muitos curdos consideraram essa medida dos EUA uma punhalada nas costas. Os militantes mais críticos, por outro lado, frisaram que a aliança com a maior potência mundial sempre foi militar, não política. A manobra geopolítica dos EUA foi a de armar e treinar as Unidades de Proteção Popular (YPG) e as Unidades de Proteção da Mulher (YPJ), ligadas às Forças Democráticas da Síria (FDS), grupo de combate vinculado ao Partido de União Democrática (PYD). O objetivo desse suporte era o combate ao Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS). Com a retirada das tropas estadunidenses, o cenário para a volta da organização terrorista está montado e o povo do Curdistão Ocidental exposto aos ataques da Turquia.

O governo turco considera todos esses grupos curdos terroristas, enquanto os EUA deram apoio aos mesmos. A única concordância se dá em torno do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), fundado por Abdullah Öcalan, em 1984, e pautado no Confederalismo democrático, de valores autonomistas, feministas e comprometido com as pautas ecológicas. Todo esse acúmulo de luta e formação política curda resultou no controle do maior povo sem Estado do mundo do nordeste da Síria, com destaque para Rojava, região autônoma no norte do território sírio controlada pelas YPG. Em 2016, seu nome foi alterado para Federação Democrática do Norte da Síria (FDNS).

Com a retirada das tropas estadunidenses da fronteira entre Síria e Turquia – país que tem o segundo maior exército da OTAN – o governo de Erdogan ficou livre para realizar incursões militares dentro do território sírio, com a alegação de atacar os “terroristas” curdos. O projeto por trás da ofensiva bélica curda é o de enfraquecer os curdos utilizando os refugiados sírios como barganha. A Turquia, país que mais recebe refugiados no mundo, deseja criar uma “zona de segurança” na fronteira e reassentar dois milhões de sírios no Norte da Síria. A manobra de Erdogan tem a estratégia de enfraquecer a resistência no Curdistão Ocidental tirando o domínio demográfico curdo da região.

Maior minoria étnica da Turquia (cerca de 20% da população), os curdos têm um histórico de luta contra a repressão turca. No Iraque e no Irã, árabes e persas também oprimem o projeto de um Curdistão livre. Caso um Estado curdo se forme, estaríamos diante de uma potência geopolítica: exército numeroso, acesso a água em meio a uma região desértica e reservas de petróleo. Em meio a essa resistência, diferentes interesses são postos. Até mesmo Israel vê com bons olhos as organizações curdas. Não por ideologia, mas por enfraquecer seus países vizinhos, principalmente o Irã, uma potência regional. O próprio governo iraniano, embora tenha condenado as ações de Erdogan, se vê numa encruzilhada: fortalecer os inimigos de uma potência regional da OTAN ou combater uma minoria atuante em seu território e no Iraque, país fronteiriço e também de maioria xiita?

Observamos que a questão curda vai muito além das relações envolvendo EUA, Turquia e Síria. O impasse envolve a estabilidade diplomática e militar regional e uma batalha ao mesmo tempo geopolítica e ideológica. Os territórios ligados ao Curdistão são dotados de auto grau de organização, defesa e portam valores anticapitalistas. Por isso a traição de Trump não surpreende e escancara que os EUA nunca tiveram a menor pretensão de dar apoio político aos curdos.

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL.

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